segunda-feira, 16 de novembro de 2009

Feliz Aniversário Vovó

Sussurro suave ao redor, nuvem
de seda embalando astros.
Aqui, onde respira a vida,
perfume de malva, silêncio de córrego
entre pedras. Ar lúcido de luz.

(Bárbara Lia)





p.s: É uma singela homenagem que posso dedicar a minha avó.

sábado, 14 de novembro de 2009

Cartas sem destino...

(Sophie Calle)
cuide de você


Querida Elnora,


Envio-lhe uma carta, e desta carta existirá outras cartas.

A carta é a simbolização do laço frouxo em nós.

Ontem a noite emanava sexo e amor. O cheiro de ambos mesclava o suor e a respiração ofegante, fluindo nas paredes do quarto, impregnando as velhas rachaduras de amor, sexo e delírio.

Demarcávamos nosso limite com gritos, gemidos e gozo, transcendíamos as delimitações impostas pela timidez momentânea do ato.

É quase impossível distinguir nossos corpos, teu dedo entrançava-se nos meus, tuas pernas enlaçava-se nas minhas, tua boca tecia-se na minha boca. Os nossos corpos encaixavam-se divinamente um ao outro, éramos hóstia e vinho ofertado em momento sagrado.

A tonelada do meu corpo aliviava-se sobre o seu corpo com violência e ternura, o meu prazer deslizava vagarosamente para dentro de você, delicadamente, como deveria ser o amor da alma e do corpo.

O gemido emitido por você ecoava nas cavernas de minha pele.

Tornamos um corpo, enquanto sua voz despedaçada murmurava os arrepios que meus lábios criavam quando afagava sutilmente os teus seios. Novamente estava habitando dentro de você, e você remexia o quadril e pressionava a vagina para melhor me senti habitando os salões vagos do seu prazer.

Assim, juntos, adormecemos sobre os lençóis de nossa pele.

Quando amanheceu estava sozinho na cama, havia um bilhete dizendo o seguinte:


Querido,

Você é um beija-flor que invadiu meu jardim numa tarde primaveril, bailando, pousou na minha flor (coração) bebendo o nécta do meu amor. Contudo, na vida tudo é perecível. O outono chega trazendo aquele frio rigoroso, quando menos esperamos é inverno, e as pétalas da flor caem, a flor murcha perdendo toda a substância que alimenta a vida.

Eu sequei a cinco semanas, e os únicos fluidos que escorre do meu coração é a traição em não lhe dizer a verdade. Assim, deixou um ADEUS.


Lendo este bilhete, resolvi deixar-te livre para florescer em outros campos, porém rasgo minhas palavras em gotas d’água para regar você novamente, ou seja, periodicamente mandarei cartas nostálgica, saudosista e informativa sobre mim, minhas lembranças e o meu amor.

Até logo, querida!


(Alan Félix)

sexta-feira, 13 de novembro de 2009

O rio


O beijo cursa no rio,
diplomando no mar da boca.


(Alan Félix)

quinta-feira, 12 de novembro de 2009

Os Mares


O teu pênis
submerge nos mares denso
do meu ventre.

Adentra
o abismo inexplorado
por outros corpos.

Afunda
nas águas mansa
da minha vulva.

Alaga
os vãos secos
no teu gozo.

(Alan Félix)

quarta-feira, 11 de novembro de 2009

Cartas sem destino...

(Garance Doré)
























Querida Elnora,

A lua expandia seu brilho no rabisco a lápis de céu.
A enorme esfera branca no altíssimo, parecia os olhos graúdos da tua face. Era o seu olhar imenso sobre o meu minúsculo corpo.
Lembrei-me das noites no cais da cidade em que morávamos, a lua deitada sobre o espelho do rio, abrindo uma trilha de tapete branco igual aos grãos de arroz que abençoou nossa união matrimonial.
Recordo-me do seu vestido branco igual à neve que nunca vi, mas imagino um dia sentir acariciando minha pele num inverno suíço ao seu lado.
O inverno já passou por mim, a camada de gelo que cobria minha pele derreteu com a chegada do calor dos teus abraços. Esses abraços que você oferece são como a primavera beijando suavemente a boca dos Alpes congelados pelo frio rigoroso, há muito tempo o meu corpo estava congelado esperando as sementes quentes germinarem no encontro de nossas peles.
É bom falar do abraço da pessoa amada, porque o abraço é o encontro invisível da alma, é quando os poros dilatam escoando substâncias fluidas do íntimo, e que nasce da fonte límpida da alma.
Quero sentir novamente tua alma nua fundi-se a minha alma.

(Alan Félix)

terça-feira, 10 de novembro de 2009

Efervescência


O sêmen escorre
entre os peitos de cetim,
trilhando na efervescência da pele
o teu caminho.

Incerto como o vento silvestre,
guia-te
cegamente nos intervalos
do teu corpo.

Á esmo migra para os campos
virgens do tua cintura – segue a sul
brotando no meridiano
do teu desejo.

Alastra-se nos relevos da virilha,
escorrendo para o canal espesso
da tua vagina.

(Alan Félix)

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

Excesso


O televisor mostrava o canal 68 azulado, o micro system tocava “master of puppets” do Metallica no volume máximo, a cerveja gelada marcava a mesa de centro nova e uma fileira de cocaína se aprontava para ser absorvida por meu nariz ávido.
A frente desse cenário, eu, um homem solitário no apartamento do sétimo andar, no deserto pessoal que denominava de lar, seria melhor espaço desprovido de excesso, já que o excesso caracterizava com maior riqueza a evasiva dos ecos emitido das paredes silenciosas da casa, da minha casa, desta casa onde sobrevivo.
Procurei nos jornais a maneira de prover a falta de excesso tão habitual em mim e aqui.
Nos anúncios de classificados encontrei uma mulher, uma transa.
Enquanto cheirava cocaína e tomava a cerveja gelada, farejava como cachorro no cio as propagandas na ânsia de encontrar diversão gostosa e acessível.
Encontrei o seguinte:

Morena, 1.88m, cabelo cacheado,
corpo escultural, profissional sigilosa.
Telefone de contato: (71) 8318.3352
Instigado pela alma do negócio estiquei meu corpo pesado até alcançar o aparelho e telefonei.

Depois de um breve acordo com a prostituta fechei o programa por cem reais.

Em quarenta minutos a campainha tocou e me arrastei entre os escombros da minha ruína domiciliar. Eu a recebi e apontei para que se sentasse no sofá.

Durante o estranhamento dos primeiros olhares trocados “one” de Metallica tocava, era como uma serenata perturbadora em minha alma.

A prostituta com olhos de harpia analisou todo o espaço, notou a imensidão desértica com aves carniceiras em todos os cantos. Aproveitou o momento em que eu trancava a porta e cheirou o pó branco que repousava sobre a mesinha de centro.

Dirigi-me até o frigobar, peguei uma cerveja e ofereci a madame que estava em meu sagrado sofá. Recusou-se exigindo uma bebida quente para animar, uma Martine, conhaque ou vodca. Aquele olhar de desdém libertou-se das minhas pupilas dilatadas.

Providenciei uma dose de vodca vagabunda, servi.

Entreguei a bebida a prostituta, sendo logo direto no meu monologo:

– Quero serviço completo!


A mulher me olhou e pediu para trocar a música, conversar um pouco, beber juntos.

A murdez do silêncio infestou a sala, a mudez se apresentou como a melhor resposta para aquelas exigências da mulher, ou melhor, da prostituta.

Meu pênis foi posto ereto para fora já incontrolável e de maneira bruta, como a situação exigia que eu fosse, segurei o cabelo daquela mulher e fui direcionando-a ao encontro de meu membro pujante. Com a boca escancarada mergulhou meu pênis o mais profundo que pode em sua garganta, ate que a ânsia de vomito viesse se apresentar.

Ajoelhou-se e manteve o ritmo ditado por mim, e eu a segurava tão forte que na pele dela tinha marcas dos meus dedos.

Chupou-me dedicadamente, várias vezes, e cada vez a intensidade aumentava.

Se tivessem oportunidade os gemidos seriam ouvidos ate dentro de outros apartamentos.

Eufórica, começou a tirar a roupa, eu ergui sua cabeça e a marquei com um tapa deixando sua face avermelhada. Ela revidou com a mesma intensidade. Tiramos a roupa.

Carreguei-a e lancei-a sobre a mesa de jantar que ficava na sala, meu pênis faminto saiu dilacerando ferozmente a vagina e depois o anus da puta.

Minha casa deixara de estar deserta, alem da Metallica, tinha os gemidos de uma mulher que eu fiz gozar. Os nossos corpos compuseram uma orquestra de sons variados, quase uma ópera do prazer, nem os maiores gênios da composição conseguiriam escrever as partituras que nos dois produzimos nessa casa escassa.


(Alan Félix)

sábado, 7 de novembro de 2009

O sebo

O dia estava ensolarado, a boca do céu tragou todas as nuvens.

O céu límpido das manhãs de novembro, porém, na face daquele homem tinha gotas d’água.
O dia chovia para ele.

O amplo campo verde reluzia os raios solares, o vento deitava vagarosamente sobre o capim, a tranqüilidade e o repouso demonstravam nomes, datas escatológicas e mensagens de adeus.

O homem com a face gotejada olhava fixamente para a lápide da mulher que perdeu há dois anos num acidente de carro. A amada faleceu em seus braços quando tentava socorrê-la, a infelicidade maior é que estava grávida de 5 meses.

Duas dores colossais abriam abismos em seu coração.

Decidiu ir para uma cidade no interior iniciar uma nova vida, ou melhor, destruir a própria existência sem sentido que vivia. O vicio tornou-se uma rotina: bebida alcoólica, cigarro e má alimentação. Todas essas práticas tinham uma finalidade crucial, à morte. Desejava passivamente a morte, pois a falta de coragem para o suicídio o acovardava.

Na cidade havia um pequeno sebo de livros usados. O homem possuía uma pequena biblioteca em casa, reunia os exemplares prediletos da sua amada.

Vendeu cada fragmento que o aprisionava a esposa, cada livro uma memória literária do amor. Em especial o livro preferido que repetidas vezes a amada o mandava ler.

Desfez de cada livro, expurgando a saudade.

Os livros foram vendidos rapidamente no sebo, tratava-se de livros literários belíssimos. O livro que a mulher o mandá-la ler foi adquirido por uma jovem mulher. Chegando na residência a mulher folheou o livro encontrando uma velha carta escrita a mão por uma mulher ao seu marido.

A jovem retornou ao sebo e procurou informa-se sobre quem era o antigo proprietário do livro que acabava de adquirir. O vendedor sabia pouco sobre o homem que desfez do livro.

O tempo passou...

Na tarde de janeiro, o dia estava ensolarado, o céu expeliu uma cortina de nuvens alvas, o campo verde do parque refletia a grama esmeralda. O homem caminhava lentamente hermético nos seus pensamentos. Enquanto caminhava distraído esbarrou numa jovem mulher derrubando seus pertences. Ao ajudar a mulher a recolher seus objetos, notou que existia um livro familiar no meio.

Estando curioso, convidou timidamente a mulher para tomar um café, sentaram num banco do parque e conversaram sobre diversos assuntos. Entre tantos assuntos surgiu o prazer da literatura, amor pelos livros.
A jovem num gesto efusivo apresentou o livro mais encantador que leu. O homem ficou supresso, porque se tratava do exemplar predileto da falecida esposa.

Os olhos castanhos submergiram em lágrimas infindáveis.

Perplexa com a reação do homem, a mulher perguntou se o livro simbolizava algo em especial na sua vida. Entre as gotas d’água que pintava sua face, e a voz soluçada, o homem começou a contar a história sobre sua esposa e o livro.

A mulher atônica folheou descontrolado o livro parando na página 105, nesta página estava o bilhete escrito a mão.

Calmamente a mulher sorriu, colocou a carta na página novamente, entregou o livro ao homem dizendo que era um presente e mandou-o ler a carta que se encontrava no livro.

A jovem levantou evaporando-se ao caminhar em direção da saída do parque...

Naquele mesmo instante o homem leu a carta, que dizia:

Querido Fernando,

Ao ler esse livro entenderá o quanto você é significante para mim, e caso algum dia eu não esteja presente em sua vida, saberá que estou com você nas entrelinhas de cada fragmento grifado por mim neste livro.

Amo-te!

A chuva voltou a cair na face do homem, que dobrou o bilhete colocando no bolso da camisa, cruzou as pernas e começou vagarosamente a ler o primeiro capitulo do livro...

(Alan Félix)

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

O peso

Quero sentir o peso do punhal no coração
rasgar toda dor colossal.

Deixar cursar como rio no corpo
todas correntezas do sofrimento.

E talvez, quando o pranto manchar
qualquer expressão na face.

E o espelho olhar como estranho,
o intruso que o repara silencioso.

Talvez, as margens agitada do coração
se acalme com o tempo.

(Alan Félix)

quarta-feira, 4 de novembro de 2009

Meu lado!


Tenho na alma a feminidade
a delicadeza das Adélia, Cora, Clarice.


Toda são sombras que me seguem

na calada dos meus pensamentos.


Ganham vida na forma de versos

como menstruação da alma.


Escorrem por entre a ponta da caneta

sujando o papel com versos.


Versos menstruados de sensibilidade

que minha mente pode traduzir.


Desta forma, vou escrevendo-as

poesias, prosas... mulheres.

(Alan Félix)

terça-feira, 3 de novembro de 2009

Cartas sem destino...

(Garance Doré)


Querida Elnora,


Nesse tempo de distância aprendi o significado da palavra saudade.

Mude seu significado mandando um recado.

Não é o tormento da tua ausência que me aflige, mas, o silêncio da tua falta que enlouquece, e a essa ausência ainda não aprendi o significado, muito menos algum derivado para substituir o que se chama de carência.

Realmente, sinto carência das caricias notívaga que furtava meu sono.

Na beira da cama projetávamos nossos planos firmados com beijos e abraços. A ausência que é palavra para você, simboliza em mim a falta do cheiro do café nas manhãs. É a falta de lábios exalando a menta da pasta dental, é a reclamação do impulso em querer-te beijar com gosto de hálito noturno.

E agora o que faço se o sinônimo de ausência virou saudade.


(Alan Félix)

domingo, 1 de novembro de 2009

Horas


Que horas são no contratempo do seu relógio?

Não tenho tempo para o tempo.

Meus minutos são preciosidade no seu calendário.

O meu diário tem folhas em branco

que o tempo pinta com as horas.

E o pensamento do futuro consome com traça,

qualquer escrito impresso na hora de ontem.

E as datas morrem na inércia de minha mão,

revelando o tempo da minha hora.


(Alan Félix)

sexta-feira, 30 de outubro de 2009

Clandestino


Certa noite adentrou a minha casa,
deitou em minha cama,
penetrou o meu corpo,
roubou o meu orgasmo,
deixando-me o cansaço e a solidão ao lado.

(Alan Félix)

terça-feira, 27 de outubro de 2009

Volúpia


O teu dente rasga
o corpo
até o abismo do meu ventre.

A tua língua aprofunda
no vale
entre as minhas pernas.

Na penumbra do meu sexo,
teus lábios
bordam o meu orgasmo.

(Alan Félix)

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

Cartas sem destino...


Querida Elnora,

Hoje você diz que não sei viver com a solidão, mas esqueceste que me forjei nela moldando em fogo todas as paredes dos labirintos que ergui em torno do meu coração, corpo e mente, isolando-me de qualquer gesto de carinho, palavra e atenção ofertado por algum indivíduo que demonstrasse compaixão. Contudo, quando você apareceu, manhã de dezembro, o seu sorriso enigmático demoliu todos os alicerces entranhado nas asperezas mais grosseira do meu coração, transformando em areia varrida pelo vento todas as paredes que protegia e assegurava minha solidão. Inevitavelmente aconteceu querida, você me ensinou a solidão a dois. A solidão da pipoca salgada em pleno domingo à tarde, a solidão da divisão do sorvete de flocos no pôr-do-sol na praia, a solidão de ler os trechos dos nossos livros prediletos deitado na rede na noite fresca de terça-feira... Essa solidão que você me ensinou a amar, a gostar e a viver, causava um medo imenso, por isso, ergui os labirintos para estranhos se perderem ao aproximasse. Este labirinto erguido me fez perder em você na loucura de encontrar uma saída que não desejava, quando notei minha exausta tentativa de fuga, estava em você tracejado como tatuagem.

(Alan Félix)

terça-feira, 20 de outubro de 2009

Após a Eternidade

“em memória da minha avó”

Garoa parecia tão confortante
Lágrimas sinceras demais
Amigos nunca antes visto
Oração rigorosamente rogada
Murmúrios não tão aguçados
Olhares piedosos lançado ferozmente
Pêsames nunca haviam sido tranqüilizantes
Choros de uma perspectiva pessoal
Caminhar retrocederá uma dor
Badaladas dizia que era a realidade
Personificação do transcender mostrará
Outrora memórias esquecidas

Alimenta! As chamas em mim
Chama, que entorpece meu ser
com sofrimento...
Vento nunca assustador e medonho
Terra nunca antes receptiva
Minha perspicácia jogada no mar
da incompreensão...
Cada pá de terra crescia meu lamento
Sensação de perda tomou meu ser
Arco-íris nunca me mostrou a continuação.

(Alan Félix)

segunda-feira, 19 de outubro de 2009

Ignez

Eu pareço tanto com você
e herdei do tempo
todo sinal que é você.

Quando olho nos seus olhos
todo meu reflexo é
semelhante ao teu.

Dos seus 85 anos
impresso na sua pele,
22 anos estão em mim
como chaga na alma.

Eu sou o fantasma
que já foste outrora.
E carrego na minha veia
toda nossa história.

(Alan Félix)
p.s: Homenagem para minha avó.

terça-feira, 13 de outubro de 2009

Céu Noturno

Quero pintar

estrelas

ao gozar no céu

noturno

da sua boca.

(Alan Félix)

sexta-feira, 9 de outubro de 2009

A Calçada


Acendeu o cigarro durante a caminhada para casa.
O sol se destruía nos concretos dos prédios atrás de seu ombro.
Pensou na solidão em que vive toda vez quando abre a porta de casa.
Ao jogar fora o filtro do cigarro percebeu uma mulher caída no passeio, foi então confortá-la em seus braços finos como gravetos, recostando a cabeça inerte ao seu peito. O acontecido mobilizou transeuntes que passavam no local.
A mulher de cabelo avermelhado como o céu flamejante de fim de tarde, o olhou profundamente com olhar debilitado, aquele olhar frágil, carente, clamando por ajuda. Esse olhar contorceu profundamente as vísceras intactas de Pablo.
O suor caia friamente dos seus póros dilatados, o sangue fervilhava em suas veias finas e transparentes, a ebulição no seu coração transformava em vapor toda sensação daquele olhar feminino. A única reação que o corpo expressou foi um sussurro no ouvido da mulher: "estou aqui com você, ficará bem".
Por alguns instantes desfiou de sua face pálida um sorriso esperançoso de quem vê a luz turva no dia de escuridão, típico daqueles dias em que o sol brinca de se esconder nas nuvens cinzas que emanam das circunstâncias do tempo. A sombra do dedo curto pintado com esmalte vermelho tateava a pele, os braços, os ombros e entranhava-se por entre os cabelos alinhados de Pablo, na tentativa de oferecer carinho.
A força de quem tentar dizer num momento qualquer da vida toda gratidão, por existir alguém que se importa por você. - Por você! - E o pensamento suspenso e mudo no ar ecoa nos ares da fé, por você ter significância para algum ser vivo. Assim, ela despencou a mão, olhando firmemente para Pablo, derramando o último suspiro em palavras murmuradas pausadamente no ouvido do homem que a percebeu, que a sentiu, que à entendeu. O adeus encerrou seu olhar alegre. O pobre homem a apertou no peito, lamentando por sua incapacidade, por sua insignificância. O tempo consumiu as horas, dias e meses estampado no ponteiro do relógio. Anos depois Pablo terminou compreendendo as palavras ditadas pelo olhar da mulher, traduzindo cada entrelinha do que ela quis expressar.
(Alan Félix)

terça-feira, 6 de outubro de 2009

Sopro


O meu coração não grita como outrora, ultimamente murmura baixo minhas dores abissais que consome o silêncio da noite. O coração contorce definhando a minha vida. Quanta pulsação ainda fará antes de aquietar os temporais de verão que dilui minha alma. Naufrago nas marolas que dissolvem no canto dos meus olhos. O que me resta dos fragmentos vermelhos que habita meu peito esquerdo. Sei que ainda o coração faz correr o sangue nas minhas veias amarradas. Até quando ele gritará minha vida, não sei...

Alan Félix