sexta-feira, 9 de outubro de 2009

A Calçada


Acendeu o cigarro durante a caminhada para casa.
O sol se destruía nos concretos dos prédios atrás de seu ombro.
Pensou na solidão em que vive toda vez quando abre a porta de casa.
Ao jogar fora o filtro do cigarro percebeu uma mulher caída no passeio, foi então confortá-la em seus braços finos como gravetos, recostando a cabeça inerte ao seu peito. O acontecido mobilizou transeuntes que passavam no local.
A mulher de cabelo avermelhado como o céu flamejante de fim de tarde, o olhou profundamente com olhar debilitado, aquele olhar frágil, carente, clamando por ajuda. Esse olhar contorceu profundamente as vísceras intactas de Pablo.
O suor caia friamente dos seus póros dilatados, o sangue fervilhava em suas veias finas e transparentes, a ebulição no seu coração transformava em vapor toda sensação daquele olhar feminino. A única reação que o corpo expressou foi um sussurro no ouvido da mulher: "estou aqui com você, ficará bem".
Por alguns instantes desfiou de sua face pálida um sorriso esperançoso de quem vê a luz turva no dia de escuridão, típico daqueles dias em que o sol brinca de se esconder nas nuvens cinzas que emanam das circunstâncias do tempo. A sombra do dedo curto pintado com esmalte vermelho tateava a pele, os braços, os ombros e entranhava-se por entre os cabelos alinhados de Pablo, na tentativa de oferecer carinho.
A força de quem tentar dizer num momento qualquer da vida toda gratidão, por existir alguém que se importa por você. - Por você! - E o pensamento suspenso e mudo no ar ecoa nos ares da fé, por você ter significância para algum ser vivo. Assim, ela despencou a mão, olhando firmemente para Pablo, derramando o último suspiro em palavras murmuradas pausadamente no ouvido do homem que a percebeu, que a sentiu, que à entendeu. O adeus encerrou seu olhar alegre. O pobre homem a apertou no peito, lamentando por sua incapacidade, por sua insignificância. O tempo consumiu as horas, dias e meses estampado no ponteiro do relógio. Anos depois Pablo terminou compreendendo as palavras ditadas pelo olhar da mulher, traduzindo cada entrelinha do que ela quis expressar.
(Alan Félix)