Sussurro suave ao redor, nuvemde seda embalando astros.
Aqui, onde respira a vida,
perfume de malva, silêncio de córrego
entre pedras. Ar lúcido de luz.
(Bárbara Lia)
p.s: É uma singela homenagem que posso dedicar a minha avó.
Sussurro suave ao redor, nuvem
Querida Elnora,
Envio-lhe uma carta, e desta carta existirá outras cartas.
A carta é a simbolização do laço frouxo em nós.
Ontem a noite emanava sexo e amor. O cheiro de ambos mesclava o suor e a respiração ofegante, fluindo nas paredes do quarto, impregnando as velhas rachaduras de amor, sexo e delírio.
Demarcávamos nosso limite com gritos, gemidos e gozo, transcendíamos as delimitações impostas pela timidez momentânea do ato.
É quase impossível distinguir nossos corpos, teu dedo entrançava-se nos meus, tuas pernas enlaçava-se nas minhas, tua boca tecia-se na minha boca. Os nossos corpos encaixavam-se divinamente um ao outro, éramos hóstia e vinho ofertado em momento sagrado.
A tonelada do meu corpo aliviava-se sobre o seu corpo com violência e ternura, o meu prazer deslizava vagarosamente para dentro de você, delicadamente, como deveria ser o amor da alma e do corpo.
O gemido emitido por você ecoava nas cavernas de minha pele.
Tornamos um corpo, enquanto sua voz despedaçada murmurava os arrepios que meus lábios criavam quando afagava sutilmente os teus seios. Novamente estava habitando dentro de você, e você remexia o quadril e pressionava a vagina para melhor me senti habitando os salões vagos do seu prazer.
Assim, juntos, adormecemos sobre os lençóis de nossa pele.
Quando amanheceu estava sozinho na cama, havia um bilhete dizendo o seguinte:
Querido,
Você é um beija-flor que invadiu meu jardim numa tarde primaveril, bailando, pousou na minha flor (coração) bebendo o nécta do meu amor. Contudo, na vida tudo é perecível. O outono chega trazendo aquele frio rigoroso, quando menos esperamos é inverno, e as pétalas da flor caem, a flor murcha perdendo toda a substância que alimenta a vida.
Eu sequei a cinco semanas, e os únicos fluidos que escorre do meu coração é a traição em não lhe dizer a verdade. Assim, deixou um ADEUS.
Lendo este bilhete, resolvi deixar-te livre para florescer em outros campos, porém rasgo minhas palavras em gotas d’água para regar você novamente, ou seja, periodicamente mandarei cartas nostálgica, saudosista e informativa sobre mim, minhas lembranças e o meu amor.
Até logo, querida!
(Alan Félix)


Depois de um breve acordo com a prostituta fechei o programa por cem reais.
Em quarenta minutos a campainha tocou e me arrastei entre os escombros da minha ruína domiciliar. Eu a recebi e apontei para que se sentasse no sofá.
Durante o estranhamento dos primeiros olhares trocados “one” de Metallica tocava, era como uma serenata perturbadora em minha alma.
A prostituta com olhos de harpia analisou todo o espaço, notou a imensidão desértica com aves carniceiras em todos os cantos. Aproveitou o momento em que eu trancava a porta e cheirou o pó branco que repousava sobre a mesinha de centro.
Dirigi-me até o frigobar, peguei uma cerveja e ofereci a madame que estava em meu sagrado sofá. Recusou-se exigindo uma bebida quente para animar, uma Martine, conhaque ou vodca. Aquele olhar de desdém libertou-se das minhas pupilas dilatadas.
Providenciei uma dose de vodca vagabunda, servi.
Entreguei a bebida a prostituta, sendo logo direto no meu monologo:
– Quero serviço completo!
A mulher me olhou e pediu para trocar a música, conversar um pouco, beber juntos.
A murdez do silêncio infestou a sala, a mudez se apresentou como a melhor resposta para aquelas exigências da mulher, ou melhor, da prostituta.
Meu pênis foi posto ereto para fora já incontrolável e de maneira bruta, como a situação exigia que eu fosse, segurei o cabelo daquela mulher e fui direcionando-a ao encontro de meu membro pujante. Com a boca escancarada mergulhou meu pênis o mais profundo que pode em sua garganta, ate que a ânsia de vomito viesse se apresentar.
Ajoelhou-se e manteve o ritmo ditado por mim, e eu a segurava tão forte que na pele dela tinha marcas dos meus dedos.
Chupou-me dedicadamente, várias vezes, e cada vez a intensidade aumentava.
Se tivessem oportunidade os gemidos seriam ouvidos ate dentro de outros apartamentos.
Eufórica, começou a tirar a roupa, eu ergui sua cabeça e a marquei com um tapa deixando sua face avermelhada. Ela revidou com a mesma intensidade. Tiramos a roupa.
Carreguei-a e lancei-a sobre a mesa de jantar que ficava na sala, meu pênis faminto saiu dilacerando ferozmente a vagina e depois o anus da puta.
Minha casa deixara de estar deserta, alem da Metallica, tinha os gemidos de uma mulher que eu fiz gozar. Os nossos corpos compuseram uma orquestra de sons variados, quase uma ópera do prazer, nem os maiores gênios da composição conseguiriam escrever as partituras que nos dois produzimos nessa casa escassa.
(Alan Félix)

Toda são sombras que me seguem
na calada dos meus pensamentos.
Ganham vida na forma de versos
como menstruação da alma.
Escorrem por entre a ponta da caneta
sujando o papel com versos.
Versos menstruados de sensibilidade
que minha mente pode traduzir.
Desta forma, vou escrevendo-as
(Garance Doré)
Querida Elnora,
Nesse tempo de distância aprendi o significado da palavra saudade.
Mude seu significado mandando um recado.
Não é o tormento da tua ausência que me aflige, mas, o silêncio da tua falta que enlouquece, e a essa ausência ainda não aprendi o significado, muito menos algum derivado para substituir o que se chama de carência.
Realmente, sinto carência das caricias notívaga que furtava meu sono.
Na beira da cama projetávamos nossos planos firmados com beijos e abraços. A ausência que é palavra para você, simboliza em mim a falta do cheiro do café nas manhãs. É a falta de lábios exalando a menta da pasta dental, é a reclamação do impulso em querer-te beijar com gosto de hálito noturno.
E agora o que faço se o sinônimo de ausência virou saudade.
(Alan Félix)

