quarta-feira, 19 de maio de 2010

Cartas sem destino.


Querida Elnora,

O amor foi muito para mim, sempre um fardo, uma maldição titânica de carregar o mundo.
E hoje quando me abraço é sinal que sinto a saudade em mim.
O tempo se fez presente, e a vontade de falar do gramado no jardim é constante. Queria a suavidade do seu perfume, aliviando o peso do ar que respiro. Tem muito em mim que quer verbalizar. Ultimamente a parede anda muda, e a mudez assusta, pois é presságio da solidão.
Não quero me sentir sozinho. Já vivi muito tempo dentro de um casulo, hoje quero voar com você sobre as flores que cobre teu corpo, tuas flores preferidas.
Quero rememorar os perfumes que exalam das superfícies lunares dos teus olhos.
Abre as janelas que cerram ao adormecer, permita que seu corpo seja refúgio do meu.


(Alan Félix)

terça-feira, 18 de maio de 2010

Moldura



Na moldura do meu corpo nu
teus seios pincéis
pintam nosso quadro noturno.

(Alan Félix)

segunda-feira, 10 de maio de 2010

ConchaMar


Guardo no peito conchas do mar,
que ao você encostar teu ouvido,
ouvi o som do a-mar.

(Alan Félix)

quinta-feira, 6 de maio de 2010

Oceano Branco


O mar branco apareceu

inundando o céu

meu pesadelo cresceu

sonho se distorceu

mostrei o monstro

que habita no meu eu.


As gotas de chuva pararam

o vento soprou melodicamente

o florescer das plantas decompostas

vejo-me, vejo-me

desfazendo-me,

virando a ultima lágrima

que é pela mãe Gaia.


(Alan Félix)

terça-feira, 4 de maio de 2010

O Barro da Educação


É uma manhã de junho, o sol floresce no morro atrás de minha casa, meu pai acorda cedo para ir na oficina e iniciar o processo de fabricação das esculturas em barro. Tal técnica de produção artesanal foi ensinado de geração em geração.
Recordo-me que meus amigos aprendiam com os pais o processo de produção de vasos, jarros e panelas de barro para ser vendido na feira do porto na cidade. Era uma época de conseguir uma renda extra para manter a alimentação da família durante os dias subseqüente do ano. Paralelo a esse aprendizado de esculturas em barros, íamos a escola na zona rural da cidade, os professores sempre gentis e educados ensinavam sobre os mais diversos assuntos que diziam ser do nosso interesse e fundamentais para nossa educação.
Nesse processo da escola, eu, odiava as aulas de História que era oferecida pela professora Guilhermina, ela forçava decorar datas cívicas, ensinava a história sobre um mundo que ia além do nosso pequeno vilarejo. O mundo para mim ia da cerca ao norte da roça de Sr. Inacio até o córrego que banhava-me toda manhã. Esse era o mundo que conhecia, essa era a história que eu sabia por meus avós contarem na varanda da casa, isso que me pertencia.
O tempo passou como as águas de um riacho, como as ondas das mares que sempre ouvir o professor de geografia falar e nunca vi. Notava que ao crescer algumas tradições do processo de produção artesanal do barro foi esquecido pelos jovens do vilarejo. Nesse momento já havia conseguido ingressar na faculdade, fui aprovado no curso de história. Engraçado que era a matéria que odiava. Contudo, queria aprender o porque não falavam da história que meus avós contavam.
Deixei aquele meu pequeno mundo e fui morar na capital, conhecir uma realidade diferente da minha infância. Durante a faculdade tive uma disciplina chamada Estágio Supervisionado III, nessa disciplina acabamos lendo a obra Pedagogia da Autonomia, de Paulo Freire.
Compreendi a partir da leitura da sua obra que ensinar não é transferir conhecimento, mas criar as possibilidades para a sua produção ou a sua construção. Que o discente é a única razão do docente estar ali, mas ensinar exige rigoroso metódico, não deixando escapar nenhum detalhe em seus discentes, e deve despertar no educando a curiosidade e capacidade crítica, ensinar exigia pesquisa, não há ensino sem pesquisa e pesquisa sem ensino, busco o ensino porque perguntei e porque pergunto. Pesquiso para constatar, aquilo que já sei, educo e me educo. Pesquiso para conhecer e o que ainda não conheço e comunicar ou anunciar a novidade.
Aprendi que ensinar exigia respeito aos educandos, exigia criticidade, deixar de ser ingênuo e passar a ser crítico, mas no sentido de ser curioso, seja em forma de pergunta ou não isto gera o fenômeno da aprendizagem, ensinar exigia dar vida às palavras pelo exemplo, o professor que não consegue traduzir aquilo que diz em exemplos práticos, de nada serve o que ele fala, saber quer dizer segurança no que diz.
A cada palavra que lia na obra de Paulo Freire, percebia o descaso de alguns professores no comprometimento com o ensino, com a aprendizagem, coma docência, começava a entender o porque não davam valor a minha cultura, pois não entendiam que ensinar exigia risco, aceitação do novo e rejeição a qualquer forma de discriminação, exigia o reconhecimento e a assunção da identidade cultural, exigia consciência de que nunca esta acabado e sim que tudo recomeça, exigia o reconhecimento de ser condicionado, exigia respeito à autonomia, exigia bom senso, exigia humildade, tolerância e luta em defesa dos direitos dos educadores, exigia entender a realidade e não ficar alheio a ela, exigia a convicção de que a mudança é possível, exigia segurança, competência profissional e generosidade, exigia compreender que a educação é uma forma de intervenção no mundo, exigia liberdade e autoridade, exigia tomada consciente de decisões, e saber escutar que é muito importante e ser aberto ao diálogo, exige reconhecer que a educação é ideológica, exigia querer bem aos educandos, e por fim exigia alegria e esperança, nos homens que fazem as leis deste pais e na instituição família que apesar de tudo continua sendo um porto seguro para aqueles que não entendem e não aceitam as violências praticadas por quem tem o poder o conseqüentemente a força.
Aquelas idéias romperam minha alma, incendiada por um desejo de mudança, queria retornar ao meu vilarejo e intervir naquela realidade, demonstrar a importância do saber histórico escolar daqueles educandos, respeitando e dialogando com o saber que já possuem pela realidade social em que vivem. Queria lutar por melhoria para a classe docente, queria mudar aquele vilarejo, pois assumir uma ideologia em relação a educação daquele vilarejo que estava abandonado pelos dirigentes do país.
Após a formatura, retornei para o meu mundo, tornei-me professor da escola em que eduquei-me. Iniciei o processo de mudança que tanto o professor Paulo Freire ensinou. A disciplina de história foi o instrumento que utilizei para por em pratica algumas das concepções de Freire e atrelado aos que os PCNs (Parâmetros Curriculares Nacionais), LDB (Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional) e PNE (Plano Nacional de Educação) exigiam nas suas diretrizes.
A partir da disciplina de história tentei desenvolver as competências e habilidades indicadas pelo PCNs para o ensino de história. Busquei construir a identidade pessoal e social na dimensão histórica, a partir do reconhecimento do papel dos alunos nos processos históricos simultaneamente como sujeito e como produto dos mesmos, assim atuando sobre os processos de construção da memória social, partindo da crítica dos diversos “lugares de memória” socialmente instituídos.
Queria com isso resgatar o valor da tradição de fabricação de artesanatos com o barro. Porque ao investigar e pesquisar, notei que aquilo remetia ao passado histórico, produto de uma comunidade de ex-escravo que utilizavam dessa técnica para sobrevivem na sociedade pós-abolição. Fazendo esse regaste desenvolveria a concepção de Freire, que nossa presença no mundo não é a de quem nele se adapta mas a de quem nele se insere. É a posição de quem luta para não ser apenas objeto, mas sujeito também da História.
Compreendia que fazer esse resgate da história do vilarejo em que vivo, notei que estaria dialogando com o que o PNE trata num dos seus artigos que devemos organizar a educação básica no campo, de modo a preservar as escolas rurais no meio rural e imbuída dos valores rurais. Esse valor rural, que é um valor cultural estava sendo respeitado, ou seja me respeitava enquanto sujeito e os meus discentes, pois a questão da identidade cultura é fundamental na prática educativa e tem a ver diretamente com assumir-nos enquanto sujeitos.
Desta maneira, formei indivíduos que se realizem como pessoas, cidadãos e profissionais. A escola foi muito mais do que um simples ambiente de transmissão e acúmulo de informações. Tornou-se um espaço de experiências concretas e diversificadas, transpostas da vida cotidiana para as situações de aprendizagem. Porque educar para a vida requer a incorporação de vivências e a incorporação do aprendido em novas vivências.
Assim, resgatamos a memória histórica do vilarejo, os discentes tornaram-se seres críticos de sua realidade histórica, tornaram-se autônomos de seu saber, e conseguiram valorizar a tradição que tanto rejeitaram, por tomar consciência do valor que aqueles signos tinham para sua cultura.
O futuro é uma chama que não sei o destino, naquele que resolvi mudar, tornou-me um barro de Naná, e os discentes que eduquei foram pequenas massas de barro, que a educação transmitida e refletida por eles os moldou, e obras artesanais tornaram-se, o sol que o secaram e os engessaram foi à autonomia, a autonomia do saber próprio e histórico.


(Alan Félix)


p.s: Conto escrito para materia de Estágio Supervisionado III, objetivo discutir a obra de Paulo Freire, "pedagogia da autonomia". E escrever um texto sobre porque querer ser professor de história.

quinta-feira, 29 de abril de 2010

Recente Árduo Amor



Meu corpo vela minha alma
Meus dias se findam nessa triste história
Um amor impossível que significa tudo
Meu fim, minha alegria e tristeza infinita.

Nem belas palavras saberiam explicar...
Essa dor no peito a me matar
Mas como é preciso viver
Pois de vivo para não morrer
Mas meu coração se foi há muito tempo
Esse é meu triste desalento

Por mais impossível que pareça
Existir tanto sofrimento
Meu pranto existe e não acalma
Um só momento,
Só quando durmo adormece o meu tormento.
A vida é cruel com quem ama
Chorar até que venha enxugar minhas lágrimas
Então chorareis de alegria e não mais de solidão

(Alan Félix)

quarta-feira, 28 de abril de 2010

Desaguar do Amor


para Karine Simões

Teus olhos
caleidoscópio
refletem os espelhos
de tua alma.

Produzem
impressões afáveis
nos subterfúgios
do meu corpo.

Entranha nas raízes
do meu coração
as palpitações infinda
do teu querer.

Vertendo
um rio de desejo
que deságua
das tuas veias.

Despejando da tua boca
uma cachoeira
de grânulos de amor.

(Alan Félix)

segunda-feira, 26 de abril de 2010

Me Leve


Me leve
Me leve
Me leve

Leve
Leve
Leve

na leve bruma
do teu cantar.

(Alan Félix)

segunda-feira, 19 de abril de 2010

Jardim de Flores


Costura os teus lábios
no contorno incerto
da minha boca.

É vasto o jardim
de flores bailando
na babilônia dos teus olhos.

Dispersa as cores
dos teus olhos em borboletas
que se abrigam nos canteiros
da minha pele.

(Alan Félix)

quinta-feira, 15 de abril de 2010

En(laço)


Laço
tuas raízes em minhas pernas.
Encravo
meu aço na tua rosa.
Enlaço
nas correntes fluidas do teu sexo.
Melaço
o teu eco com açúcar.



(Alan Félix)

quarta-feira, 14 de abril de 2010

Amor das Sombras


Fechos os olhos,
mas meus olhos ainda
não conseguem ver além
o além.
Só sinto você.

Sete palmos abaixo da terra
Me ordenando
Me sucumbindo
Me sufocando.

Invade meus pensamentos
Até os mais obscuros
Revira meu passado que é seu
Adormeço em sono profundo.

E tenho pesadelos
Neles você toma forma
Se empenha em me assustar.
Eu sei o por quê
Você nunca deixou de me amar.

(Alan Félix)

terça-feira, 13 de abril de 2010

Rachadura


Despedaça a velha rachadura
do muro-lábio.

(Alan Félix)

sexta-feira, 9 de abril de 2010

Ode da Paixão


O que canta
o canto dos teus olhos.
O que murmura
os cílios acanhados da tua face.

Existem signos indecifráveis
nos campos dos teus lábios.
É rubro como o ardor
que corre nas minhas veias.

Pulsa um universo
dentro de mim
ao encontro do teu corpo nu.

E na nudez
das tuas palavras
faço meu abrigo,
quem sabe ninho.

E cantamos feito pássaro
na amplidão do céu,
e abraçamos as nuvens
no silêncio de nossos corpos.

Meu bem, que constelação
nos guarda na noite calma
de nossas camas.

(Alan Félix)

quinta-feira, 8 de abril de 2010

O Zódiaco - Áries


O ar ares áries do meu corpo,

é cálice de fogo,

banha o mar amar-te marte do teu gozo.

(Alan Félix)

quarta-feira, 7 de abril de 2010

Cartas sem destino.



Querida Elnora,

Ao longe através da janela vejo o céu brincando com os espectros das cores, abaixo observo casa, luzes e a escuridão.
A primeira estrela germina no anoitecer.
A nossa antiga casa nos contempla nessa noite, você voltou a perfumar os cômodos trazendo vida para as velhas fotografias.
Por uma noite a rotina pretérita fez-se cotidiana, a conversa, o abraço, o beijo, você em mim, eu em você na cama desértica.
Acredite por essa noite você tornou-se o melhor abrigo que poderia existir em três meses de exclusão da sensação de bem-estar que alguém poderia causar. Lógico, isso seria imprescindível, pois conhece cada centímetro do corpo que bebeu.
Embriaguei-me no vinho seco que é você.
O melhor é que amanheci sem ressaca, o coração tagarela zumbia forte ao abraçar-te na despedida, tenho nos meus olhos seu corpo fotografado.

(Alan Félix)

terça-feira, 6 de abril de 2010

Nunca mais...


Nunca mais
sentir um beijo.
Nunca mais
recebi uma flor.
Nunca mais
beija-flor.

Voou, voou de tanto vê a dor.

(Alan Félix)

segunda-feira, 5 de abril de 2010

Dia Amante


para Karine Simões

Bruto
Bruto
és o diamante
dos teus olhos
que lapida-me
com um olhar.

Tua voz labirinto
faz perder-me
nas sensações
dos timbres oculto
do teu coração.

As passagens
predestinada por Deus,
é ventura para os
sentimentos forjados
no ardor do meu coração.

Que cora a cor
da emoção
que pinto na tela branca
da tua face.

(Alan Félix)

sábado, 3 de abril de 2010

Águas de Março

Estranha essas águas que rolam
dos poços de seus olhos.
O mundo do qual brotam
essas águas é, escuro e turvo.

Têm suas margens
sempre languescidas,
as nuvens dos teus cílios
são negras e ofuscantes.

Essas águas carregam tristezas,
é uma correnteza de alívio
que lapida nas grutas dos poros,
pequenas ilhas de sossego.

As águas que fecundam
a pele quente e ardente,
tem nas suas nascentes,
verdades e segredos

que aprisionam nos cristais escuros dos olhos.

Quando transbordar
em lágrimas o mar
que carrego nos olhos,
é que a vida já me trouxe
muitos naufrágios.





(Alan Félix)

quinta-feira, 1 de abril de 2010


para Alan Félix


Grito!
Não consigo fugir do que sinto.
Paro.
É simplesmente irrefreável.
Nego...
Mas me atormenta.

Você,
Me roubou,
Paralisou,
Inundou minha alma.

Pergunto...
Porque tens que ser tão encantador?
Questiono...
E se eu me entregar?
Ainda sem resposta.

Mas, quero estar contigo.
Sentir seu cheiro,
Teu toque... suas mãos suadas.
Ver teu cabelo desgrenhado.
Teu sorriso bobo.

Concluo: adoro-te!


(Autor Anônimo)

quarta-feira, 31 de março de 2010

É de lágrima, sonhos e papel


É de lágrima o mar
que fiz para navegar
para longe de você.

Foram de sonhos
a terra que acreditei
existir além da praia escura
de seus olhos.

É de papel
o barco que construo
para dizer adeus
a enseada do teu corpo.

(Alan Félix)