terça-feira, 4 de maio de 2010

O Barro da Educação


É uma manhã de junho, o sol floresce no morro atrás de minha casa, meu pai acorda cedo para ir na oficina e iniciar o processo de fabricação das esculturas em barro. Tal técnica de produção artesanal foi ensinado de geração em geração.
Recordo-me que meus amigos aprendiam com os pais o processo de produção de vasos, jarros e panelas de barro para ser vendido na feira do porto na cidade. Era uma época de conseguir uma renda extra para manter a alimentação da família durante os dias subseqüente do ano. Paralelo a esse aprendizado de esculturas em barros, íamos a escola na zona rural da cidade, os professores sempre gentis e educados ensinavam sobre os mais diversos assuntos que diziam ser do nosso interesse e fundamentais para nossa educação.
Nesse processo da escola, eu, odiava as aulas de História que era oferecida pela professora Guilhermina, ela forçava decorar datas cívicas, ensinava a história sobre um mundo que ia além do nosso pequeno vilarejo. O mundo para mim ia da cerca ao norte da roça de Sr. Inacio até o córrego que banhava-me toda manhã. Esse era o mundo que conhecia, essa era a história que eu sabia por meus avós contarem na varanda da casa, isso que me pertencia.
O tempo passou como as águas de um riacho, como as ondas das mares que sempre ouvir o professor de geografia falar e nunca vi. Notava que ao crescer algumas tradições do processo de produção artesanal do barro foi esquecido pelos jovens do vilarejo. Nesse momento já havia conseguido ingressar na faculdade, fui aprovado no curso de história. Engraçado que era a matéria que odiava. Contudo, queria aprender o porque não falavam da história que meus avós contavam.
Deixei aquele meu pequeno mundo e fui morar na capital, conhecir uma realidade diferente da minha infância. Durante a faculdade tive uma disciplina chamada Estágio Supervisionado III, nessa disciplina acabamos lendo a obra Pedagogia da Autonomia, de Paulo Freire.
Compreendi a partir da leitura da sua obra que ensinar não é transferir conhecimento, mas criar as possibilidades para a sua produção ou a sua construção. Que o discente é a única razão do docente estar ali, mas ensinar exige rigoroso metódico, não deixando escapar nenhum detalhe em seus discentes, e deve despertar no educando a curiosidade e capacidade crítica, ensinar exigia pesquisa, não há ensino sem pesquisa e pesquisa sem ensino, busco o ensino porque perguntei e porque pergunto. Pesquiso para constatar, aquilo que já sei, educo e me educo. Pesquiso para conhecer e o que ainda não conheço e comunicar ou anunciar a novidade.
Aprendi que ensinar exigia respeito aos educandos, exigia criticidade, deixar de ser ingênuo e passar a ser crítico, mas no sentido de ser curioso, seja em forma de pergunta ou não isto gera o fenômeno da aprendizagem, ensinar exigia dar vida às palavras pelo exemplo, o professor que não consegue traduzir aquilo que diz em exemplos práticos, de nada serve o que ele fala, saber quer dizer segurança no que diz.
A cada palavra que lia na obra de Paulo Freire, percebia o descaso de alguns professores no comprometimento com o ensino, com a aprendizagem, coma docência, começava a entender o porque não davam valor a minha cultura, pois não entendiam que ensinar exigia risco, aceitação do novo e rejeição a qualquer forma de discriminação, exigia o reconhecimento e a assunção da identidade cultural, exigia consciência de que nunca esta acabado e sim que tudo recomeça, exigia o reconhecimento de ser condicionado, exigia respeito à autonomia, exigia bom senso, exigia humildade, tolerância e luta em defesa dos direitos dos educadores, exigia entender a realidade e não ficar alheio a ela, exigia a convicção de que a mudança é possível, exigia segurança, competência profissional e generosidade, exigia compreender que a educação é uma forma de intervenção no mundo, exigia liberdade e autoridade, exigia tomada consciente de decisões, e saber escutar que é muito importante e ser aberto ao diálogo, exige reconhecer que a educação é ideológica, exigia querer bem aos educandos, e por fim exigia alegria e esperança, nos homens que fazem as leis deste pais e na instituição família que apesar de tudo continua sendo um porto seguro para aqueles que não entendem e não aceitam as violências praticadas por quem tem o poder o conseqüentemente a força.
Aquelas idéias romperam minha alma, incendiada por um desejo de mudança, queria retornar ao meu vilarejo e intervir naquela realidade, demonstrar a importância do saber histórico escolar daqueles educandos, respeitando e dialogando com o saber que já possuem pela realidade social em que vivem. Queria lutar por melhoria para a classe docente, queria mudar aquele vilarejo, pois assumir uma ideologia em relação a educação daquele vilarejo que estava abandonado pelos dirigentes do país.
Após a formatura, retornei para o meu mundo, tornei-me professor da escola em que eduquei-me. Iniciei o processo de mudança que tanto o professor Paulo Freire ensinou. A disciplina de história foi o instrumento que utilizei para por em pratica algumas das concepções de Freire e atrelado aos que os PCNs (Parâmetros Curriculares Nacionais), LDB (Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional) e PNE (Plano Nacional de Educação) exigiam nas suas diretrizes.
A partir da disciplina de história tentei desenvolver as competências e habilidades indicadas pelo PCNs para o ensino de história. Busquei construir a identidade pessoal e social na dimensão histórica, a partir do reconhecimento do papel dos alunos nos processos históricos simultaneamente como sujeito e como produto dos mesmos, assim atuando sobre os processos de construção da memória social, partindo da crítica dos diversos “lugares de memória” socialmente instituídos.
Queria com isso resgatar o valor da tradição de fabricação de artesanatos com o barro. Porque ao investigar e pesquisar, notei que aquilo remetia ao passado histórico, produto de uma comunidade de ex-escravo que utilizavam dessa técnica para sobrevivem na sociedade pós-abolição. Fazendo esse regaste desenvolveria a concepção de Freire, que nossa presença no mundo não é a de quem nele se adapta mas a de quem nele se insere. É a posição de quem luta para não ser apenas objeto, mas sujeito também da História.
Compreendia que fazer esse resgate da história do vilarejo em que vivo, notei que estaria dialogando com o que o PNE trata num dos seus artigos que devemos organizar a educação básica no campo, de modo a preservar as escolas rurais no meio rural e imbuída dos valores rurais. Esse valor rural, que é um valor cultural estava sendo respeitado, ou seja me respeitava enquanto sujeito e os meus discentes, pois a questão da identidade cultura é fundamental na prática educativa e tem a ver diretamente com assumir-nos enquanto sujeitos.
Desta maneira, formei indivíduos que se realizem como pessoas, cidadãos e profissionais. A escola foi muito mais do que um simples ambiente de transmissão e acúmulo de informações. Tornou-se um espaço de experiências concretas e diversificadas, transpostas da vida cotidiana para as situações de aprendizagem. Porque educar para a vida requer a incorporação de vivências e a incorporação do aprendido em novas vivências.
Assim, resgatamos a memória histórica do vilarejo, os discentes tornaram-se seres críticos de sua realidade histórica, tornaram-se autônomos de seu saber, e conseguiram valorizar a tradição que tanto rejeitaram, por tomar consciência do valor que aqueles signos tinham para sua cultura.
O futuro é uma chama que não sei o destino, naquele que resolvi mudar, tornou-me um barro de Naná, e os discentes que eduquei foram pequenas massas de barro, que a educação transmitida e refletida por eles os moldou, e obras artesanais tornaram-se, o sol que o secaram e os engessaram foi à autonomia, a autonomia do saber próprio e histórico.


(Alan Félix)


p.s: Conto escrito para materia de Estágio Supervisionado III, objetivo discutir a obra de Paulo Freire, "pedagogia da autonomia". E escrever um texto sobre porque querer ser professor de história.