sexta-feira, 8 de julho de 2011

Carta sem destino.


Querida Elnora,


Hoje acordei com a noite invadindo meu quarto, me assustei com o chamado dela.

Apresentava-me cama vazia ao lado.

Acordava-me para ofertar a solidão que deitava no meu braço. A noite é cruel como uma ave de rapina, devora seu tormento toda noite. Infeliz, sou eu que deixei uma brecha da janela aberta. Isso porque numa noite um pássaro de asas cegas voou até minha janela.

Pensei que foi você enviando uma mensagem alada.

Ironicamente, é um daqueles pássaros que voa sem direção buscando encontrar a árvore para escapar da escuridão traiçoeira. A partir daquele dia, deixei uma brecha da janela esperançosa para que meu sonho alçasse vôo até sua cama.
Na verdade, espero que seu corpo de bem-te-vi alce vôo até minha janela para bem me vê. Meu bem, nos precisamos nos ver antes que o dia consuma a noite, e a cortina que protege meu corpo da luz do sol, impeça sua chega a mim. A cama ainda permanece vaga.

Alan Félix

quarta-feira, 6 de julho de 2011

Culpa original















Quando a maré dos olhos,
minguar a saudade do corpo,

e a cálida flor do sonho dispersar como as nuvens a exausta canção dos bardos.

Lembre-se,
a lembrança é forjada com o fogo da dor
e o ferro da tristeza.

A vida é uma invenção
de sentimento descoberto na mordida da maça

- e nos expulsa do Elísio a cada manhã.

Alan Félix

terça-feira, 21 de junho de 2011

Coração Troiano


Se em todo anoitecer enfrento dragões é porque os pesadelos fogem da lua.
A vida pesa mais que uma medida, e vivemos na balança do acaso. O que ocorrerá ou deixou de ocorrer é apenas fatos do que nunca existiu. A cada dia empunhamos o coração troiano na lança: guerreamos ou amamos. Eis a dúvida, a vida, a dúvida novamente. Tudo provém dos temores e dos tremores da alma, esse corcel assustado galopando na vértebra do medo.


Alan Félix

domingo, 19 de junho de 2011

Não te consigo inventar.


O que preocupa não é o inverno sorrateiro no jardim da casa, mas a solidão amena que sopra no vento gélido. O frio dói, dói e dói por demais no leito esquecido da cama. Porque quando o mês de junho canta a despedida do sol, e a luminosidade insistente do verão voa ao norte.

O que sobra é o cheiro da partida na rua; o tom marrom das folhas mortas nas avenidas, os bancos carente das praças ansiando por idosos.

O espantoso é a chuva.

A chuva que emudece o dia, outro dia, e adia a serenata dos pássaros na janela das casas. As janelas cerram os olhos na esperança que as lágrimas lentas do céu não molhem o quarto, a cabeceira e o corpo hibernando na solidão. O preocupante na hibernação dos sentimentos é que o verão demora a chegar.

Alan Félix

O título do texto é homenagem ao blog de Malfada

quarta-feira, 15 de junho de 2011

Eu, você, nosso chá e dois biscoitos


Escrevo para desprender em cada palavra você, extinguir sua existência em mim. Julgo e conjugo letras na liturgia da escrita. Ritual religioso na celebração da ausência. Perco o nosso passado na incorporação da palavra “adeus”. Pretexto para o texto que falo a você. Consolo-me na tormenta noturna do pensamento que luta ao ignorar você. Expresso nosso desatar na linguagem dramática das cartas, epistolas sem pista da nossa história.

Alan Félix

O título do texto é homenagem ao blog de Dinha Greyce

domingo, 5 de junho de 2011

Insaciavél




desenha seus lábios no guardanapo
que guardo e recordo nas noites quase inóspita.


rabisca seu perfume na roupa
que envolta muda o ar desse quarto.


sublinha com dedos minha carne
me marque, desejando-me só pra ti.


grave essa voz no meu ouvido
que em silêncio recita - você só pra mim.


fotografe seu olhar nesse quadro
que retrate sua alma feliz.


esculpa seu corpo no barro
que idolatrado no altar que sou “eu”.


dance seu ritmo no meu corpo
e na noite cause tremores dentro de mim.


assim, somente aqui, terei...
você junto a mim...

Alan Félix

terça-feira, 31 de maio de 2011

Atômico


nosso amor nuclear
nutre no ar.

expande, devasta...

é reação gama
do amar.

Alan Félix

Alagados

(Walter Firmo)

O que me sustenta são paus
imersos na vergonha social.

O meu chão é o mar
e as mazelas nacionais.

O meu quintal é azul,
e turvas são as lágrimas dos meus pais.

Meus governantes são Iemanjá,
que protege o meu lar.

O meu animal de estimação
é o ganhamum que me alimenta ao acordar.


Alan Félix

quinta-feira, 26 de maio de 2011

Eu, você, nosso chá e dois biscoitos


Porque pensei em você, numa libertação que é nossa. Essa terra que tornou-se carcere, também apresentou um ao outro. É a parte reconfortante de viver aqui, saber que existe quinta-feira no meu calendário.

Alan Félix

sábado, 21 de maio de 2011

Banquete


moro onde o som silencia-se,
onde a feição pode chamar de lar.

lá no selvagem campo de Deus,
na natureza infinda da voz;

na imensidão dos crimes profanos da paixão.

conjugo cantos, olhares
e mares em que possa velejar.

ofereço-me num altar
banquete para festejar a abstinência do mundo.

Alan Félix

quinta-feira, 19 de maio de 2011

Tempo


o tempo é sentido na pele,
e vivo à flor da pele, ou na pele da flor?

por onde o tempo escoa?

nos canais estreitos do pólo.
entre o vão ofegante dos corpos.

Alan Félix

quarta-feira, 18 de maio de 2011

Girassol


Você é uma manhã de sol: girassol
a girar nos meus dias.

Você é a lágrima do sol que acalenta
o inverno do meu corpo radiando calor
nos hemisférios da minha vida.

Você é porto seguro
para âncorar meu mundo a deriva.

(Alan Felix)

terça-feira, 10 de maio de 2011

O Tango

(Pedro Alvarez)

Corpos concomitantes
na volúpia da dança.

No soar fino do violino
emerge o ardor da carne.

O entrelaçar da luxúria
no espasmo do passo.

Dois corpos dialogando
nas carícias dos sapatos.

O desejo febril dos dançarinos
no gozo tácito dos aplausos.

(Alan Félix)

sexta-feira, 29 de abril de 2011

PROJETO #EUSOUGAY

Adriele Camacho de Almeida, 16 anos, foi encontrada morta na pequena cidade de Itarumã, Goiás, no último dia 6. O fazendeiro Cláudio Roberto de Assis, 36 anos, e seus dois filhos, um de 17 e outro de 13 anos, estão detidos e são acusados do assassinato. Segundo o delegado, o crime é de homofobia. Adriele era namorada da filha do fazendeiro que nunca admitiu o relacionamento das duas. E ainda que essa suspeita não se prove verdade, é preciso dizer algo.

Eu conhecia Adriele Camacho de Almeida. E você conhecia também. Porque Adriele somos nós. Assim, com sua morte, morremos um pouco. A menina que aos 16 anos foi, segundo testemunhas, ameaçada de morte e assassinada por namorar uma outra menina, é aquela carta de amor que você teve vergonha de entregar, é o sorriso discreto que veio depois daquele olhar cruzado, é o telefonema que não queríamos desligar. É cada vez mais difícil acreditar, mas tudo indica que Adriele foi vítima de um crime de ódio porque, vulnerável como todos nós, estava amando.

Sem conseguir entender mais nada depois de uma semana de “Bolsonaros”, me perguntei o que era possível ser feito. O que, se Adriele e tantos outros já morreram? Sim, porque estamos falando de um país que acaba de registrar um aumento de mais de 30% em assassinatos de homossexuais, entre gays, lésbicas e travestis.

E me ocorreu que, nessa ideia de que também morremos um pouco quando os nossos se vão, todos, eu, você, pais, filhos e amigos podemos e devemos ser gays. Porque a afirmação de ser gay já deixou de ser uma questão de orientação sexual.

Ser gay é uma questão de posicionamento e atitude diante desse mundo tão miseravelmente cheio de raiva.

Ser gay é ter o seu direito negado. É ser interrompido. Quantos de nós não nos reconhecemos assim?

Quero então compartilhar essa ideia com todos.

Sejamos gays.

Independente de idade, sexo, cor, religião e, sobretudo, independente de orientação sexual, é hora de passar a seguinte mensagem pra fora da janela: #EUSOUGAY

Para que sejamos vistos e ouvidos é simples:

1) Basta que cada um de vocês, sozinhos ou acompanhados da família, namorado, namorada, marido, mulher, amigo, amiga, presidente, presidenta, tirem uma foto com um cartaz, folha, post-it, o que for mais conveniente, com a seguinte mensagem estampada: #EUSOUGAY

2) Enviar essa foto para o mail projetoeusougay@gmail.com

3) E só :-)

Todas essas imagens serão usadas em uma vídeo-montagem será divulgada pelo You Tube e, se tudo der certo, por festivais, fóruns, palestras, mesas-redondas e no monitor de várias pessoas que tomam a todos nós que amamos por seres invisíveis.

A edição desse vídeo será feita pelo Daniel Ribeiro, diretor de curtas que, além de lindos de morrer, são super premiados: Café com Leite e Eu Não Quero Voltar Sozinho.

Quanto à minha pessoa, me chamo Carol Almeida, sou jornalista e espero por um mundo melhor, sempre.

As fotos podem ser enviadas até o dia 1º de maio.

Como diria uma canção de ninar da banda Belle & Sebastian: ”Faça algo bonito enquanto você pode. Não adormeça.” Não vamos adormecer. Vamos acordar. Acordar Adriele.

— Convido a todos os blogueiros de plantão a dar um Ctrl C + Ctrl V neste texto e saírem replicando essa iniciativa —

_____________________________ X ______________________

Querendo entender, saber mais ou participar entre no blog do #Eusougay: http://projetoeusougay.wordpress.com/

quarta-feira, 27 de abril de 2011

13 de junho



Soprou em mim todo seu canto,
estremecendo meu céu candeeiro,
as estrelas do céu da minha boca, caíram.

Num brilho efêmero das estrelas cadentes,
iluminou minha noite como uma vela,
estampou na parede do meu corpo, sua sombra quente.

E como uma cortina noturna,
cobriu meu corpo como manto dispessado
refletindo o esplendor do seu beijo, no meu corpo.

(Alan Félix)

segunda-feira, 25 de abril de 2011

Cartas sem destino.




Querida Elnora,

O que seria da saudade caso não tivesse a conhecido.
Seria apenas uma palavra sem expressão vivaz no dicionário da minha vida.
Ainda lembro-me do sorriso iluminado que cortinava todas as manhãs de segunda-feira. A segunda-feira era sempre um mórbido enterro do tédio de domingo.
Mas depois que a conheci passou a ser um cântico hipnótico da sua voz macia de morango. O castanho dos seus olhos reluzia como a pedra âmbar. A sua pele de seda cobria meu corpo no abraço reconfortante. Aquele abraço significava força ao meu corpo. Força motriz que reviveu brasas cansadas da vida.
Escrevo a palavra adeus nos fios cacheado do seu cabelo, e carrego comigo o retrato da felicidade. A clandestina felicidade que embarcou na minha vida numa quase tarde da semana.

Alan Félix

sábado, 23 de abril de 2011

Diálogo ao Vento


- amor já vou embora,
pois sou vento viajante.

- deixa o feixe da janela aberto
para que eu siga viagem nela.

- não importe-se com a saudade,
de vez em quando sopro as persianas da janela,
o lençol que lhe conforta.

(Alan Félix)

sábado, 16 de abril de 2011

Cartas sem destino.



Querida Elnora,

A cada dia faço da saudade uma criatividade.
Crio e recrio você no abstrato do coração. As cores na qual pinto os momentos etéreos, dependem da força pictórica na alma, e dos andaimes psíquicos da mente.
São toneladas de convulsões pilhadas no contende do coração - ocupando espaço. Organizá-lo tornou-se imprescindível, catalogá-lo fundamental, assim esquematizando eu e você. Subcategorias para armazenar novas transparências de transgressões amorosas da vida.
Transgredir é permitir desorganizações sentimentais no invólucro perfeccionista do amar, o coração. Este coração selvagem, safári hostil de estrangeiro, que sorrateiramente deixa-se colonizá-lo. Relutam enfraquecido as invasões bárbaras.
Obter esse estado independente novamente é recolher migalha do coração.
Desse modo, colando os vários vestígios de dor como mosaico para exibir artisticamente o painel da recuperação ao outro. Pergunto-me que mosaico tornei-me depois de tantos anos de decepção, o que ainda de real resta na minha alma desfigurada.


(Alan Félix)

sexta-feira, 15 de abril de 2011

A Poesia II


A poesia
é o espaço entre os versos.

É o silêncio abissal
entre uma palavra e outra.

É a arquitetura
da escrita nos edificios da alma.

Alan Felix

quarta-feira, 30 de março de 2011

Cachoeira

Adenor Gondim


Se minha vida não é um vapor que navega nesse rio. Então, o que ela é Paraguaçu? Pedras que servem de passada para o vulto do seu passado? Já que seus sobrados servem como vitrine da areia morta na ampulheta da mémoria. Se o vapor não navega mais nesse mar, onde navega minha alma marinheira?

(Alan Félix)