sexta-feira, 30 de outubro de 2009

Clandestino


Certa noite adentrou a minha casa,
deitou em minha cama,
penetrou o meu corpo,
roubou o meu orgasmo,
deixando-me o cansaço e a solidão ao lado.

(Alan Félix)

terça-feira, 27 de outubro de 2009

Volúpia


O teu dente rasga
o corpo
até o abismo do meu ventre.

A tua língua aprofunda
no vale
entre as minhas pernas.

Na penumbra do meu sexo,
teus lábios
bordam o meu orgasmo.

(Alan Félix)

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

Cartas sem destino...


Querida Elnora,

Hoje você diz que não sei viver com a solidão, mas esqueceste que me forjei nela moldando em fogo todas as paredes dos labirintos que ergui em torno do meu coração, corpo e mente, isolando-me de qualquer gesto de carinho, palavra e atenção ofertado por algum indivíduo que demonstrasse compaixão. Contudo, quando você apareceu, manhã de dezembro, o seu sorriso enigmático demoliu todos os alicerces entranhado nas asperezas mais grosseira do meu coração, transformando em areia varrida pelo vento todas as paredes que protegia e assegurava minha solidão. Inevitavelmente aconteceu querida, você me ensinou a solidão a dois. A solidão da pipoca salgada em pleno domingo à tarde, a solidão da divisão do sorvete de flocos no pôr-do-sol na praia, a solidão de ler os trechos dos nossos livros prediletos deitado na rede na noite fresca de terça-feira... Essa solidão que você me ensinou a amar, a gostar e a viver, causava um medo imenso, por isso, ergui os labirintos para estranhos se perderem ao aproximasse. Este labirinto erguido me fez perder em você na loucura de encontrar uma saída que não desejava, quando notei minha exausta tentativa de fuga, estava em você tracejado como tatuagem.

(Alan Félix)

terça-feira, 20 de outubro de 2009

Após a Eternidade

“em memória da minha avó”

Garoa parecia tão confortante
Lágrimas sinceras demais
Amigos nunca antes visto
Oração rigorosamente rogada
Murmúrios não tão aguçados
Olhares piedosos lançado ferozmente
Pêsames nunca haviam sido tranqüilizantes
Choros de uma perspectiva pessoal
Caminhar retrocederá uma dor
Badaladas dizia que era a realidade
Personificação do transcender mostrará
Outrora memórias esquecidas

Alimenta! As chamas em mim
Chama, que entorpece meu ser
com sofrimento...
Vento nunca assustador e medonho
Terra nunca antes receptiva
Minha perspicácia jogada no mar
da incompreensão...
Cada pá de terra crescia meu lamento
Sensação de perda tomou meu ser
Arco-íris nunca me mostrou a continuação.

(Alan Félix)

segunda-feira, 19 de outubro de 2009

Ignez

Eu pareço tanto com você
e herdei do tempo
todo sinal que é você.

Quando olho nos seus olhos
todo meu reflexo é
semelhante ao teu.

Dos seus 85 anos
impresso na sua pele,
22 anos estão em mim
como chaga na alma.

Eu sou o fantasma
que já foste outrora.
E carrego na minha veia
toda nossa história.

(Alan Félix)
p.s: Homenagem para minha avó.

terça-feira, 13 de outubro de 2009

Céu Noturno

Quero pintar

estrelas

ao gozar no céu

noturno

da sua boca.

(Alan Félix)

sexta-feira, 9 de outubro de 2009

A Calçada


Acendeu o cigarro durante a caminhada para casa.
O sol se destruía nos concretos dos prédios atrás de seu ombro.
Pensou na solidão em que vive toda vez quando abre a porta de casa.
Ao jogar fora o filtro do cigarro percebeu uma mulher caída no passeio, foi então confortá-la em seus braços finos como gravetos, recostando a cabeça inerte ao seu peito. O acontecido mobilizou transeuntes que passavam no local.
A mulher de cabelo avermelhado como o céu flamejante de fim de tarde, o olhou profundamente com olhar debilitado, aquele olhar frágil, carente, clamando por ajuda. Esse olhar contorceu profundamente as vísceras intactas de Pablo.
O suor caia friamente dos seus póros dilatados, o sangue fervilhava em suas veias finas e transparentes, a ebulição no seu coração transformava em vapor toda sensação daquele olhar feminino. A única reação que o corpo expressou foi um sussurro no ouvido da mulher: "estou aqui com você, ficará bem".
Por alguns instantes desfiou de sua face pálida um sorriso esperançoso de quem vê a luz turva no dia de escuridão, típico daqueles dias em que o sol brinca de se esconder nas nuvens cinzas que emanam das circunstâncias do tempo. A sombra do dedo curto pintado com esmalte vermelho tateava a pele, os braços, os ombros e entranhava-se por entre os cabelos alinhados de Pablo, na tentativa de oferecer carinho.
A força de quem tentar dizer num momento qualquer da vida toda gratidão, por existir alguém que se importa por você. - Por você! - E o pensamento suspenso e mudo no ar ecoa nos ares da fé, por você ter significância para algum ser vivo. Assim, ela despencou a mão, olhando firmemente para Pablo, derramando o último suspiro em palavras murmuradas pausadamente no ouvido do homem que a percebeu, que a sentiu, que à entendeu. O adeus encerrou seu olhar alegre. O pobre homem a apertou no peito, lamentando por sua incapacidade, por sua insignificância. O tempo consumiu as horas, dias e meses estampado no ponteiro do relógio. Anos depois Pablo terminou compreendendo as palavras ditadas pelo olhar da mulher, traduzindo cada entrelinha do que ela quis expressar.
(Alan Félix)

terça-feira, 6 de outubro de 2009

Sopro


O meu coração não grita como outrora, ultimamente murmura baixo minhas dores abissais que consome o silêncio da noite. O coração contorce definhando a minha vida. Quanta pulsação ainda fará antes de aquietar os temporais de verão que dilui minha alma. Naufrago nas marolas que dissolvem no canto dos meus olhos. O que me resta dos fragmentos vermelhos que habita meu peito esquerdo. Sei que ainda o coração faz correr o sangue nas minhas veias amarradas. Até quando ele gritará minha vida, não sei...

Alan Félix

quarta-feira, 9 de setembro de 2009

Leite Derramado


As lágrimas caem da escuridão do quarto.
O lenço novo não seca as lágrimas,
que rola e enrola no lençol, imundo, escuro da cama.
Entranha! As lágrimas negras que corroem o silêncio,
e banha a escuridão da face.

Alan Félix

terça-feira, 8 de setembro de 2009

1 C$


1,00 C$ cruzado, tudo que ofereceu aquele que acostumou a chamar de pai. Mas, o valor pago era para lançar ao inferno intimo a palavra "pai". Não compreendia o valor que ofereceram pela perda da palavra, mas fez o feito pela obidiência ensinada. Seguiu prematuro, sem "pai" e nem futuro. Rabiscou na parede do quarto com giz de cera de cor verde, a esperança que desejava. Já crescido comprou a dívida de 30, 00C$ cruzados do pai, e obteve a palavra preciosa novamente ao enxugar as lágrimas do homem que o conduziu ao mundo, chamado pai.


Alan Félix

domingo, 6 de setembro de 2009

Orixá


O atabaque rompia o véu
do silêncio com os orixás.

O chamado da terra batida
nascia a roda nas palmas benditas.

O ioruba mencionado na voz rouca
da mãe, conduzia o cântico.

A primeira filha gemia,
a saia brotava no giro.

O corpo envergava com as batidas,
os olhos transcendiam frenéticos.

O orixá está entre nós!


(Alan Félix)

sábado, 5 de setembro de 2009

Você & Eu


Era você e eu, as frases apaixonadas
de ‘Dirceu’ em nosso olhar.

Escrevíamos cartas eufóricas
no tom verde dos nossos olhos.

A cada piscar era uma declamação
estonteante de versos lubrificados.

Ao nos olharmos trêmulos,
as palavras dançavam vivas nas retinas.

O balé atônico das palavras,
que os lábios não escreve, mas os olhos dão vida.

E a vida brilhava no reluz dos seus olhos,
e as palavras lá contida nos escrevia.


(Alan Félix)

Olhar Candeeiro




A lumeeira dos seus olhos
são faróis guia
dos meus passos cegos.
(Alan Félix)

Homens Comuns




A terra de homens comuns,
forjado pelo barro ácido e sol escaldante,
moldado nas mãos de deuses incrédulos.

Esses deuses feito de suor e terra,
pés calejados nos cascalhos do sertão e
as mãos talhadas pelo cabo da enxada.

Os homens de olhar sofrido,
de pele árida como sol do meio-dia.
Rebanho perdido nas asas da caatinga.

Cujos santos caídos apodrecem no chão
encharcado de sangue e lágrimas
das rezadeiras ceifadoras.
(Alan Félix)

terça-feira, 1 de setembro de 2009

Cartas sem destino...


Querida Elnora,


As fumaças dos nossos passos dissolvem no ar frio das tardes de domingo. O sol brotava das sementes secas de girassol que você jogava para aquecer nossos pés descalços que flutuava nas margens límpidas daquele cais. Repousamos naquela tarde nas madeiras desbotadas pelo tempo, observando as ondas falecidas nos rochedos, assim, exalando a salubridade entranhada nas fendas revestidas de corais arco-íris. Quando nos beijamos ficávamos embriagados pelo sal, a brisa marítima e o suor desgarrado dos poros úmidecidos da saliva ardente. Agora, deitado nesta cama, segurando na porta-retrato, eu lacrimejo as saudades nessa fotografia sépia, que adormece todas as noites na instante e na cômoda do quarto. Continuo estendido sobre o colchão de casal, coberto por uma manta cor crepúsculo, acariciando minha solidão.


(Alan Félix)

quinta-feira, 27 de agosto de 2009

Caminho Setentrional


para Thiago Lima

Meu irmão segue seu caminho mesmo que seja esmo a trilha que te acompanha. A estrada calejada de outros pés ainda agüenta firme seus passos incertos. Guia-te soberano sobre essas pedras polidas por outros sapatos. O horizonte é mais perto do que o céu azulado das gaivotas. Caso a gravidade dos problemas te abrace como uma mãe que recebe seu filho expurgado do ventre, se segura num apoio e segue seu rumo, mesmo que a trilha do seu mundo mude.

Alan Félix

quinta-feira, 20 de agosto de 2009

Perdas...

Perdi meu cheiro nas flores,
meu calor nas brasas,
minha saudade no aceno.

Perdi meu amor nas cartas,
meu sorriso nas fotos,
minha tristeza na lágrima.

Perdi minha manhã no pôr-do-sol,
minha estrela na luz da lua,
meu amanhecer no sono,

Perdi tanta coisa nessa vida,
que a vida se perdeu das linhas
de minha mão.

(Alan Félix)

sexta-feira, 14 de agosto de 2009

Segunda nota para pequeno conto


- Logo eu, o moro de Veneza!

Sala negra, quatro cadeiras de madeira, um cenário de nossa imaginação, o abstrato ganhando vida, o personagem possuindo meu corpo, seu nome era Ottelo. Pausa para beber água, o ensaio retornaria em alguns minutos. Sentei para descansar, lembrei de minha avó dizendo que teatro não daria futuro, teria que cursar uma universidade, e deveria procurar um cursinho.
Na saga de encontrar um cursinho, acabei cursando no Cursinho Exato na Liberdade. Porém, quando iria estudar na sala do cursinho, já estava em casa e seis meses haviam passado. Logo, me encontrava em outra caminhada, apesar de que nesta procura do novo cursinho para fazer intensivo havia um sabor especial. Claro, que o sabor especial era uma mulher em minha vida e um plano de ser aceito pelos pais dela ao cursar numa universidade pública. Lá estavam os três mosqueteiros de Alexandre Dumas (eu, Thiago e Washington). Iniciando no cursinho intensivo do Sagrado, área estratégica para ver minha namorada e ficar indo ao shopping.
No processo de tal devaneio prestei vestibular na UFBA para produção cultural. Isso devido à certeza de querer pegar matérias optativas em cinema e depois cursar como aluno especial numa universidade do sudeste. Esse é o ponto chave do meu desejo, estudar CINEMA.


Alan Félix

quarta-feira, 12 de agosto de 2009

A lua e a face

A lua invadiu meu quarto.
Estremeu minha sombra.
Afugentou minha escuridão.

Neste momento de luz,
esqueci em que fase
ficou perdida a minha face.

(Alan Félix)

sexta-feira, 31 de julho de 2009

Primeira nota para pequeno conto




Mergulhei para dentro de mim, submergi tanto que encontrei o abismo que expandia de aflição, logo encontrei uma porta branca no meio daquela escuridão. Abrindo a porta cai num quarto com fragmentos de minha memória, eram quase pequenos retratos sépia que montava um quebra-cabeça. Fiquei intrigado com esse mundo que existia em mim. Ao juntar os pequenos fragmentos algumas imagens do meu terceiro ano emergiam na minha cabeça.
Recordo-me que vivia mais tempo no nevoeiro escolar, do que no deserto da minha casa. Ao dissipar o nevoeiro escolar uma paisagem pitoresca do colégio nascia turva, entre as flechas de luz que ultrapassava o nevoeiro havia um mundo que nos contemplava com a Feira do São Joaquim e da Baía de Todos os Santos.
Num cenário desenhado a giz exercia atividades de teatro, musicoterapia, espanhol e dança. Nessa pequena encenação do meu cotidiano, apresentei o papel de tesoureiro do grêmio estudantil. Um ano de múltiplas atividades nesse nevoeiro escolar. Assim, o relógio, consumiu devagar as horas, os dias, os meses e fechou o ano escolar. Nesse período havia conseguido a isenção do vestibular da UFBA. E várias interrogações mancharam meu corpo, pois a dúvida de Hamlet, “ser ou não ser”, no meu caso “cursar ou não cursar”, consumiu minha vida. Então, num lapso repentino optei por cursar uma faculdade pública.
Apaguei o futuro que pichei na parede do meu ideal. Escavei tudo que desejava ser de verdade, e enterrei como cachorro, todos meus sonhos. Segui o plano que a ampulheta do destino decidiu escoar para mim. Escoando, cursei geofísica na UFBA, isso porque amava geografia e queria estudar vulcão. Por que eu queria estudar vulcão? É uma resposta que remete a interrogação do ovo e da galinha.
Então, acabei não sendo selecionado para segunda fase do vestibular. Queria atirar-me no mar, contudo, como sou sonhador continuei a sonhar.

Alan Félix