sábado, 30 de julho de 2011

Vida sustentável


A noite cai sorrateira escondendo as pegadas do sol. Adentro a casa vazia: quarto, sala, banheiro e solidão. O metro quadrado da casa não cabe a bagagem do meu dia. É difícil descansar quando não existe janela para ver a cidade sufocada na fumaça.
No microondas esquento a esperança a cada manhã, a marmita que se arrasta pelo dia e qualquer outra desilusão que possa beber juntamente com o café amargo do bom dia. Tranco a porta de tudo que sou, e vou fechado ao trabalho, a vida, a agonia, a rotina e termino na cortina do banheiro tomando uma ducha.

Alan Félix

sexta-feira, 29 de julho de 2011

Desatino


O nosso desatino é o desafino desse coração.

Alan Félix

quarta-feira, 27 de julho de 2011

Pressentimento


p/ Ana Clara

Deixe a moça recitar
o samba
nos versos dos seus passos.

Deixe-a dizer que é
bamba
e que ama qualquer pessoa (que cantar o seu samba).

Deixe-a cantar baixinho,
quase em silêncio o chorinho
que sopra da flauta dos seus olhinhos.


Alan Félix

domingo, 24 de julho de 2011

Quem sabe isso quer dizer amor.



A bússola do coração
orienta a desorientação do amor.

As rotas são notas suprimidas
no silêncio dos olhares.

Caminho no deserto incerto
dos solitários,

colhendo desesperança perdida
em folhas de cartas esdrúxulas.

Queimo as cartas para aquecer as noites de solidão.

Alan Félix

terça-feira, 19 de julho de 2011

O cálice



Olhos plácidos espreitam

vãos silenciosos da noite.


Onde está as divindades subterfugias

que observam os homens


O cálice aproxima-se, e vejo meu sangue tinto.


Alan Félix

sábado, 16 de julho de 2011

Marujo


Eis o coração essa balsa a
velejar na razão da amada.


A mar marujo no amar.

Alan Félix

sexta-feira, 8 de julho de 2011

Andança


Quando sempre passo por sua janela, espio o interior da casa.

É involuntário o gesto, sem perceber quando noto vigio sua presença. Lembro da tarde cansativa, das preocupações que rodeavam como sombra, e quando a distração furtava a atenção, voltei o olhar para a janela de grandes vidraças.

Rapidamente, a epifania daquela mulher debruçada olhando a multidão que devagar crescia sobre o asfalto da avenida.

A gravidade pesava lentamente nos caracóis do cabelo ruivo, e a cada balançar das mechas os campos de algodão do céu moviam-se. Caminhei entorpecido beirando as paredes, sacadas e meio-fio da rua. O coração transpirava pesando o vôo dos pulmões.
Assim, toda tarde caminho naquela avenida, percorro aquela rua, espreito aquela janela na esperança de abraçar-la novamente num olhar.

Alan Félix

Carta sem destino.


Querida Elnora,


Hoje acordei com a noite invadindo meu quarto, me assustei com o chamado dela.

Apresentava-me cama vazia ao lado.

Acordava-me para ofertar a solidão que deitava no meu braço. A noite é cruel como uma ave de rapina, devora seu tormento toda noite. Infeliz, sou eu que deixei uma brecha da janela aberta. Isso porque numa noite um pássaro de asas cegas voou até minha janela.

Pensei que foi você enviando uma mensagem alada.

Ironicamente, é um daqueles pássaros que voa sem direção buscando encontrar a árvore para escapar da escuridão traiçoeira. A partir daquele dia, deixei uma brecha da janela esperançosa para que meu sonho alçasse vôo até sua cama.
Na verdade, espero que seu corpo de bem-te-vi alce vôo até minha janela para bem me vê. Meu bem, nos precisamos nos ver antes que o dia consuma a noite, e a cortina que protege meu corpo da luz do sol, impeça sua chega a mim. A cama ainda permanece vaga.

Alan Félix

quarta-feira, 6 de julho de 2011

Culpa original















Quando a maré dos olhos,
minguar a saudade do corpo,

e a cálida flor do sonho dispersar como as nuvens a exausta canção dos bardos.

Lembre-se,
a lembrança é forjada com o fogo da dor
e o ferro da tristeza.

A vida é uma invenção
de sentimento descoberto na mordida da maça

- e nos expulsa do Elísio a cada manhã.

Alan Félix

terça-feira, 21 de junho de 2011

Coração Troiano


Se em todo anoitecer enfrento dragões é porque os pesadelos fogem da lua.
A vida pesa mais que uma medida, e vivemos na balança do acaso. O que ocorrerá ou deixou de ocorrer é apenas fatos do que nunca existiu. A cada dia empunhamos o coração troiano na lança: guerreamos ou amamos. Eis a dúvida, a vida, a dúvida novamente. Tudo provém dos temores e dos tremores da alma, esse corcel assustado galopando na vértebra do medo.


Alan Félix

domingo, 19 de junho de 2011

Não te consigo inventar.


O que preocupa não é o inverno sorrateiro no jardim da casa, mas a solidão amena que sopra no vento gélido. O frio dói, dói e dói por demais no leito esquecido da cama. Porque quando o mês de junho canta a despedida do sol, e a luminosidade insistente do verão voa ao norte.

O que sobra é o cheiro da partida na rua; o tom marrom das folhas mortas nas avenidas, os bancos carente das praças ansiando por idosos.

O espantoso é a chuva.

A chuva que emudece o dia, outro dia, e adia a serenata dos pássaros na janela das casas. As janelas cerram os olhos na esperança que as lágrimas lentas do céu não molhem o quarto, a cabeceira e o corpo hibernando na solidão. O preocupante na hibernação dos sentimentos é que o verão demora a chegar.

Alan Félix

O título do texto é homenagem ao blog de Malfada

quarta-feira, 15 de junho de 2011

Eu, você, nosso chá e dois biscoitos


Escrevo para desprender em cada palavra você, extinguir sua existência em mim. Julgo e conjugo letras na liturgia da escrita. Ritual religioso na celebração da ausência. Perco o nosso passado na incorporação da palavra “adeus”. Pretexto para o texto que falo a você. Consolo-me na tormenta noturna do pensamento que luta ao ignorar você. Expresso nosso desatar na linguagem dramática das cartas, epistolas sem pista da nossa história.

Alan Félix

O título do texto é homenagem ao blog de Dinha Greyce

domingo, 5 de junho de 2011

Insaciavél




desenha seus lábios no guardanapo
que guardo e recordo nas noites quase inóspita.


rabisca seu perfume na roupa
que envolta muda o ar desse quarto.


sublinha com dedos minha carne
me marque, desejando-me só pra ti.


grave essa voz no meu ouvido
que em silêncio recita - você só pra mim.


fotografe seu olhar nesse quadro
que retrate sua alma feliz.


esculpa seu corpo no barro
que idolatrado no altar que sou “eu”.


dance seu ritmo no meu corpo
e na noite cause tremores dentro de mim.


assim, somente aqui, terei...
você junto a mim...

Alan Félix

terça-feira, 31 de maio de 2011

Atômico


nosso amor nuclear
nutre no ar.

expande, devasta...

é reação gama
do amar.

Alan Félix

Alagados

(Walter Firmo)

O que me sustenta são paus
imersos na vergonha social.

O meu chão é o mar
e as mazelas nacionais.

O meu quintal é azul,
e turvas são as lágrimas dos meus pais.

Meus governantes são Iemanjá,
que protege o meu lar.

O meu animal de estimação
é o ganhamum que me alimenta ao acordar.


Alan Félix

quinta-feira, 26 de maio de 2011

Eu, você, nosso chá e dois biscoitos


Porque pensei em você, numa libertação que é nossa. Essa terra que tornou-se carcere, também apresentou um ao outro. É a parte reconfortante de viver aqui, saber que existe quinta-feira no meu calendário.

Alan Félix

sábado, 21 de maio de 2011

Banquete


moro onde o som silencia-se,
onde a feição pode chamar de lar.

lá no selvagem campo de Deus,
na natureza infinda da voz;

na imensidão dos crimes profanos da paixão.

conjugo cantos, olhares
e mares em que possa velejar.

ofereço-me num altar
banquete para festejar a abstinência do mundo.

Alan Félix

quinta-feira, 19 de maio de 2011

Tempo


o tempo é sentido na pele,
e vivo à flor da pele, ou na pele da flor?

por onde o tempo escoa?

nos canais estreitos do pólo.
entre o vão ofegante dos corpos.

Alan Félix

quarta-feira, 18 de maio de 2011

Girassol


Você é uma manhã de sol: girassol
a girar nos meus dias.

Você é a lágrima do sol que acalenta
o inverno do meu corpo radiando calor
nos hemisférios da minha vida.

Você é porto seguro
para âncorar meu mundo a deriva.

(Alan Felix)

terça-feira, 10 de maio de 2011

O Tango

(Pedro Alvarez)

Corpos concomitantes
na volúpia da dança.

No soar fino do violino
emerge o ardor da carne.

O entrelaçar da luxúria
no espasmo do passo.

Dois corpos dialogando
nas carícias dos sapatos.

O desejo febril dos dançarinos
no gozo tácito dos aplausos.

(Alan Félix)