domingo, 16 de outubro de 2011

O Barulho e o Silêncio


para Lorena Andrade


Sempre vivi com os barulhos das coisas: o coração batendo, a respiração ofegante, a gargalhada estridente e o beijo estralado. O barulho sempre teve uma desarmonia graciosa, uns timbres desconfortantes e irritantes. A criança quando nasce imediatamente faz baralho, é sinal que a vida foi inspirada no respirar. A tristeza trás consigo o barulho das lágrimas e o ruído do soluço agonizante de exorcizar toda dor e aflição. A chuva quando rega a terra com prosperidade e calamidade também trás consigo o som. O som é transcendental, é a origem primeira de tudo, é a gênese lancinante da origem divina. No entanto, o silêncio inebria a vida com a suavidade de suspirar. Na obra mais divina do homem, o silêncio sempre esteve presente no embriagante amor. O amor embebeda de silêncio o ser, é sorrateiro, contagioso e desassossega os barulhos do corpo e da alma, faz da surdez uma benção enlouquecedora. Por isso que amar é silenciar o coração e o respirar.

(Alan Felix)

quinta-feira, 13 de outubro de 2011

Mormaço


O mormaço deitasse sobre a cidade, aquele dia que o sol ensaia aparecer, e a chuva desfila tímida nos espaçamentos do dia. O que incomoda de verdade é o mormaço, nem tanto a incerteza do dia em ficar amarelo ou cinza, a tonalidade das cores sempre me atraiu. Mas, o desencanto é remeter o mormaço a paixão agonizante que vivenciei alguns meses. Nossa como alguém pesava tanto dentro do coração e incomodava de viver, respirar e sentir. Porque nada é mais vibrante do que respirar. Não é por acaso que a liberdade sempre é compreendida como um suspiro. Não desvendei os segredos do suspiro, mas sinto a cada suspiro, um mergulho desconhecido nos mares íntimos do corpo, o prazer rápido e silencioso. Num instante entre respirar e expirar desencadeia um balé frenético do universo, e nesse gesto deprimente encontramos o que de mais voraz afirma nossa existência. No suspiro contem uma vivacidade indômita, selvagem... Genealogia de procedência cósmica e infinda. No entanto, aqui o mormaço permanece.

(Alan Félix)

ADEUS AMOR


Hoje o silêncio
é companheiro da cama,
e ao cobrir com o lençol
a saudade lhe desperta.

Onde está o nosso amor?
Carregaste contigo ao dizer adeus,
quando levaste as manhãs de amor
e as canções que tanto dediquei.

Despiu-se das frases românticas
e evaporou como a lágrima indelicada
que cursa o destino plantado
na origem da sua causa.

Não desejo suas palavras cristalizadas,
emolduradas nas imagens de espelhos.
Se partir, traga honestidade na voz,
no olhar e no tempo.

Não me abrace e partas depois,
o corpo anseia por aprendizagem
da solidão, do vago, do nunca mais...
Permita-me ao costume de não lhe ter.

(Alan Félix)

sábado, 24 de setembro de 2011

Entre














Entre o intervalo
Existe o silêncio e o vazio.

Entre minha boca
E sua boca existe o vácuo.

Entre o muro
E o seu corpo existe minha mão.

Entre o pensamento
e o falar existe um esconderijo

...onde guardo tudo que sinto expressar.

Entre a vida e a morte
Existe o instante de tudo.

...o passa nesse momento é chances perdidas.

A chance de silenciar, beijar,
apertar você e arriscar.


Alan Félix

terça-feira, 30 de agosto de 2011

Construção e Constelação

Entre a construção
e a constelação
existe o céu
e o arranha-céu.

O arranhar da língua
no céu da boca
ou o arranhar da boca
no céu da moça.

Alan Félix

segunda-feira, 29 de agosto de 2011

Ancorar



Liberta-me das amarras de suas pernas
e ama o balançar do meu corpo
na nau de sua vela.

Ínsita, o navegar das minhas mãos
nos mares da sua boca
ancora seus suspiros
no porto do meu ouvido.

Umedece a proa dos seus seios
nos mastros dos meus dedos
hasteando os desejos navegantes
no cais do meu corpo.


Alan Félix

domingo, 28 de agosto de 2011

Libertas


despimos de tudo que nos aprisionávamos...
primeiro a verdade,
depois o medo,
em seguida o amor,

e ficamos nus de tudo que tínhamos em nós,
que nos cobria e revestia de humanidade.

Alan Félix

quarta-feira, 24 de agosto de 2011

GEMINIANO & CAPRICORNIANO


Porque tudo é caos e sinergia
na mutua comunhão do zodíaco.
Eis que a paciência e o amor
o relógio da espera geminiana
gemina na esperança capricorniana
de apaixonasse e ao tempo entregasse.

Na calmaria das fases da lua,
nas ave Maria rogada na pressa.
O habitual desabitua na frustração
do relacionamento desastroso.

Na duvida da entrega do corpo,
a alma na volúpia ilimitada da paixão.
Eis que a demora capricorniana
tende a machucar nas recusas.

Alan Félix

quarta-feira, 17 de agosto de 2011

Iemanjá




Quais os segredos
migram do teu mar
Iemanjá.

Fevereiro
é tempo de flores
voando nas ondas do mar.

É tempo de banhar-se
em suas águas
e saudar com cânticos.

Odo Iyá.
Odo Iyá.
Odo Iyá.

No abebê (olhos marítimos)
refletem o azul do celeste,
e as águas viram espelho de deus.

Alan Félix

sexta-feira, 5 de agosto de 2011

Maquinário

O homem criou máquinas
para fazer arte.

O homem criou máquinas
para satisfazer as suas necessidades.


Alan Félix.

terça-feira, 2 de agosto de 2011

Tanto Mar


Tanto mar Maria
Tanto mar ia
Tanto mar vinha
Tanta maravilha
Tonto do mar eu ia
Tanta maresia
Tanto mar na ilha.


Alan Félix

segunda-feira, 1 de agosto de 2011

A(mar) (Ser)tão


Se amar virá sertão, então serei tão seu.


Alan Félix

sábado, 30 de julho de 2011

Vida sustentável


A noite cai sorrateira escondendo as pegadas do sol. Adentro a casa vazia: quarto, sala, banheiro e solidão. O metro quadrado da casa não cabe a bagagem do meu dia. É difícil descansar quando não existe janela para ver a cidade sufocada na fumaça.
No microondas esquento a esperança a cada manhã, a marmita que se arrasta pelo dia e qualquer outra desilusão que possa beber juntamente com o café amargo do bom dia. Tranco a porta de tudo que sou, e vou fechado ao trabalho, a vida, a agonia, a rotina e termino na cortina do banheiro tomando uma ducha.

Alan Félix

sexta-feira, 29 de julho de 2011

Desatino


O nosso desatino é o desafino desse coração.

Alan Félix

quarta-feira, 27 de julho de 2011

Pressentimento


p/ Ana Clara

Deixe a moça recitar
o samba
nos versos dos seus passos.

Deixe-a dizer que é
bamba
e que ama qualquer pessoa (que cantar o seu samba).

Deixe-a cantar baixinho,
quase em silêncio o chorinho
que sopra da flauta dos seus olhinhos.


Alan Félix

domingo, 24 de julho de 2011

Quem sabe isso quer dizer amor.



A bússola do coração
orienta a desorientação do amor.

As rotas são notas suprimidas
no silêncio dos olhares.

Caminho no deserto incerto
dos solitários,

colhendo desesperança perdida
em folhas de cartas esdrúxulas.

Queimo as cartas para aquecer as noites de solidão.

Alan Félix

terça-feira, 19 de julho de 2011

O cálice



Olhos plácidos espreitam

vãos silenciosos da noite.


Onde está as divindades subterfugias

que observam os homens


O cálice aproxima-se, e vejo meu sangue tinto.


Alan Félix

sábado, 16 de julho de 2011

Marujo


Eis o coração essa balsa a
velejar na razão da amada.


A mar marujo no amar.

Alan Félix

sexta-feira, 8 de julho de 2011

Andança


Quando sempre passo por sua janela, espio o interior da casa.

É involuntário o gesto, sem perceber quando noto vigio sua presença. Lembro da tarde cansativa, das preocupações que rodeavam como sombra, e quando a distração furtava a atenção, voltei o olhar para a janela de grandes vidraças.

Rapidamente, a epifania daquela mulher debruçada olhando a multidão que devagar crescia sobre o asfalto da avenida.

A gravidade pesava lentamente nos caracóis do cabelo ruivo, e a cada balançar das mechas os campos de algodão do céu moviam-se. Caminhei entorpecido beirando as paredes, sacadas e meio-fio da rua. O coração transpirava pesando o vôo dos pulmões.
Assim, toda tarde caminho naquela avenida, percorro aquela rua, espreito aquela janela na esperança de abraçar-la novamente num olhar.

Alan Félix

Carta sem destino.


Querida Elnora,


Hoje acordei com a noite invadindo meu quarto, me assustei com o chamado dela.

Apresentava-me cama vazia ao lado.

Acordava-me para ofertar a solidão que deitava no meu braço. A noite é cruel como uma ave de rapina, devora seu tormento toda noite. Infeliz, sou eu que deixei uma brecha da janela aberta. Isso porque numa noite um pássaro de asas cegas voou até minha janela.

Pensei que foi você enviando uma mensagem alada.

Ironicamente, é um daqueles pássaros que voa sem direção buscando encontrar a árvore para escapar da escuridão traiçoeira. A partir daquele dia, deixei uma brecha da janela esperançosa para que meu sonho alçasse vôo até sua cama.
Na verdade, espero que seu corpo de bem-te-vi alce vôo até minha janela para bem me vê. Meu bem, nos precisamos nos ver antes que o dia consuma a noite, e a cortina que protege meu corpo da luz do sol, impeça sua chega a mim. A cama ainda permanece vaga.

Alan Félix