terça-feira, 24 de abril de 2012

ÍM PAR




silencia
a ânsia do corpo nu
precipita
a voracidade com os olhos
– devora em silêncio.

em prece fecunda os pátios do prazer.

sorrateiro
espuma sobre o corpo
borbulha
delirante nos mares do rochedo
– mergulha em silêncio.

alastrar-se
na fissura oculta dos beijos
ceifa
os ímpetos de desejo
– coloniza em silêncio.
 


Alan Félix

segunda-feira, 23 de abril de 2012

Era dos Extremos



Engatilhando
o medo
aterrorizo
ater riso
o mundo.

Ascensão
da barbárie
polarizou
o mundo.

Guerra: quente ou fria?

Vertiginoso
o telescópio
explora
o confim
do universo.

Uno versos
na conquista
espacial
do verbo.

A engenharia
da ficção
degrada
a inspiração
a respiração.
 
Tudo
é incerto
inconstante
e inconsciente.
 
Contradição 
 
Alan Félix

sábado, 21 de abril de 2012

Vigiar e Punir

O meu amor
é censurado,
disciplinado,
controlado

amar(ras)
invisiveis
o reprime,
neutraliza,
normatiza.

O meu amor
é carcerário
do corpo

é errado,
doentio,
degenerado.

quarta-feira, 18 de abril de 2012

Escombro

O tempo
escava a ruína 
do corpo, 
frágil 
o homem 
torna-se poeira, 
escombro 
e entulho de vida. 

Com pedras 
nas mãos 
empilhamos torre, 
erguemos babel e 
sopramos o céu. 

Desabamos 
do firmamento 
das estrelas, 
cadentes caímos 
perdidos 
na imensidão. 

Alan Félix

terça-feira, 17 de abril de 2012

Amar-te

Eis uma runa negra, 
que delineia entre o rio estrelar 
caminhos perdidos em nossas almas 
guiando-me até lábios nascente, 
que ao toque desmancha 
meus sentimentos mais duro 
refazendo minha face a sua face 
na façanha de amar-te 

Alan Félix

sábado, 3 de março de 2012

Folia

As notas musicais
pulavam
na avenida sem fim...
A cada bloco musical
era um ritmo inusitado...
E as partituras...
Partiram dali...
(Alan Félix)

sábado, 7 de janeiro de 2012

Diagnóstico


A distância entre mim e mim é evidente. Busco refugio no silêncio do pensamento. As correntezas do dia-a-dia são mais constantes que a calmaria da tempestade que se agrava em mim.
A alma não passeia a tempo, encarcerada numa canção do lado b de minha vida. Toda sombra da felicidade e do gesto de viver é um déjà vu do passado já tão distante.
Receio as possibilidades que a vida apresenta, pois o congelamento da cena naquele instante que durará a eternidade de um sonho masoquista, incrusta todos os maus sonhos.

Alan Félix

segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

A Passista


Sambo
é porque seu canto
fez morada em mim.

A saudade
despiu-se de mim
e é porta-bandeira da sua lembrança.

Alan Félix

domingo, 1 de janeiro de 2012

Sonho e Desejo


Entre o sonho
e o desejo
habita o delírio
e o lírio
que colho no jardim.

Jazem em mim todos os sonhos do mundo.

Alan Félix

quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

Manhã


Toda manhã na esquina dos seus olhos vejo a vontade sensível de abraçar o infinito. Insustentável conter o indomável enigma do amor. Todos os dias são resquícios do afeto que vivemos ontem. Às vezes remanesce algo indecifrável, impenetrável, inacessível para o presságio da existência.

A cada manhã, despedaça as sonolentas lembranças mal vividas, e os temores fúnebres da solidão. É difícil aliviar a noite murmurante de clausura prematura da nostalgia. Não somos educados em suportar as amargas vísceras da perda. O luto é uma sentinela intacta do cotidiano, conserva-se nas tardes de nossa vida para consolar a solidão.

Alan Félix.

segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

Rosáceas


Rosas brancas,
Rosas negras,
Rosas indígenas.
Foi num pomar que nasceu o Brasil.

Alan Félix

sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

Morena


Ah! Morena,
transborda nas lágrimas a saudade
no canto dos seus olhos
eu canto, um cântico de prece
recito ao divino uma reza
acendo uma vela e velo por você.

dorme para mim as tristezas
sintoniza as frequências do coração
algum coração toca para ti,
algum coração é uma canção.

desfaz a dor na quietude das lágrimas
lava as memórias despertadas nas manhãs ensoladas
reserva a delicadeza e o voar da borboleta
é frágil as pilastras do vento que desmancha.

Alan Félix.

quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

Vênus de Mel


Olhos cristalizado de mel.

Abelha retratista
desenhaste tão linda face,

com ferrão bronzeado do sertão,

moldando tão bela Vênus
do norte.

Qual a cor do teu pecado?

Teu pecado tem a cor
que fagulha o sol do Nordeste.

O azul cintilante da chama do mar
da ilha do amor

O mel que adoça meu viver.

Dama de olhar murmurante,
lábio entorpecente e toque embriagante.

Afrodite da cor do pecado do mel.

Olhar escarlate penetrante
como antares.

Que leve toque do teu lábio roubou
minha alma agreste.

(Alan Félix)

quinta-feira, 27 de outubro de 2011

A chuva, a vidraça e um instante do tempo


A chuva vagarosamente cai na rua, e pelo vidro vejo o mundo embaçado. Desenho lembranças de momento no vidro. O tédio incorporado nos infantis desenhos. Num momento de distração, ou seja, quando navegamos num barquinho de papel nas correntezas inóspitas das águas brotadas das cachoeiras das calhas. Imaginei um semblante, um toque e um olhar. Diante de tantas distrações logo um amor já muito adormecido, um vestígio histórico de que um dia sentir amor a outro homem.
Pronto! Cá estou pensando em Fernando. Nada demais em pensar num ex-amante. O problema é pensar que ele significou a descoberta de quem sou. Nesse momento que questiono se tudo que vivo é decorrente daquele toque, olhar e semblante. Talvez, acredito que havia algo alinhado no nosso destino, que acarretou nesse desatino de me assumir quer sou. E pensar em quem sou é caótico, tempestivo e vertiginoso.
A personalidade que edifico é como a chuva, num momento branda e suave banhando a pele ressecada das angustia cotidianas. Desta forma, trago uma essência de renovação ao abraçar o próximo. Ao pensar nessa analogia, noto que trouxe esperança ao solo árido de Fernando. Enfim, noutros momentos sou tempestade, chego sem anunciar, destruo e inundo todas as veredas do corpo alheiro, deixando a calamidade na alma.
Não acredito, por isso que Fernando sumiu da minha vida? Eu carreguei tudo de bom que habitava nele, inundei sua vida de esperança, encharcando o solo de sua felicidade, a ponto de embebedar toda grandiosidade transformando num solo infértil.
Quem eu sou? Nesse momento de reflexão ocasionado pela chuva que desejo o latente nos céus convidando a viver o que não sei de mim. Bocejo na vidraça e apago os desenhos e as recordações, enrolo nos lençóis com Rodrigo e assisto a um filme. Amanhã noto que algo novo pode recomeçar como uma bonança que adentra a fresta da janela.

Alan Félix

quarta-feira, 19 de outubro de 2011

Anarquia


Amar é Estado sem governo, total anarquia.

Alan Félix

terça-feira, 18 de outubro de 2011

Alquimia


Pergunto-me, porque Deus apresenta-me algo que não posso viver. Dar amores que não posso amar, e os amores que posso amar é apenas miragem do meu desejo insaciado. Perco-me na dúvida de sentir. O que realmente de verdadeiro pulsar dentro de mim? Porque os sismos desencadeados a cada pessoa têm intensidades vibratórias oscilantes? Oras, são tremores infindos que desmorona meu coração, e oras, são vibrações superficiais e ilusórias. Apego-me ao ilusório na esperança de conjurá-lo em real. É transformar num processo alquímico o ferro da paixão em ouro do amor. A falha, a falha, a falha sempre se fez presente em mim. A alquimia transmuta a paixão num cárcere de juras, promessas e inconseqüências. Assim, prendo-me em amarras pessoais, nas quais os nós apertam sufocando.

Alan Félix

domingo, 16 de outubro de 2011

O Barulho e o Silêncio


para Lorena Andrade


Sempre vivi com os barulhos das coisas: o coração batendo, a respiração ofegante, a gargalhada estridente e o beijo estralado. O barulho sempre teve uma desarmonia graciosa, uns timbres desconfortantes e irritantes. A criança quando nasce imediatamente faz baralho, é sinal que a vida foi inspirada no respirar. A tristeza trás consigo o barulho das lágrimas e o ruído do soluço agonizante de exorcizar toda dor e aflição. A chuva quando rega a terra com prosperidade e calamidade também trás consigo o som. O som é transcendental, é a origem primeira de tudo, é a gênese lancinante da origem divina. No entanto, o silêncio inebria a vida com a suavidade de suspirar. Na obra mais divina do homem, o silêncio sempre esteve presente no embriagante amor. O amor embebeda de silêncio o ser, é sorrateiro, contagioso e desassossega os barulhos do corpo e da alma, faz da surdez uma benção enlouquecedora. Por isso que amar é silenciar o coração e o respirar.

(Alan Felix)

quinta-feira, 13 de outubro de 2011

Mormaço


O mormaço deitasse sobre a cidade, aquele dia que o sol ensaia aparecer, e a chuva desfila tímida nos espaçamentos do dia. O que incomoda de verdade é o mormaço, nem tanto a incerteza do dia em ficar amarelo ou cinza, a tonalidade das cores sempre me atraiu. Mas, o desencanto é remeter o mormaço a paixão agonizante que vivenciei alguns meses. Nossa como alguém pesava tanto dentro do coração e incomodava de viver, respirar e sentir. Porque nada é mais vibrante do que respirar. Não é por acaso que a liberdade sempre é compreendida como um suspiro. Não desvendei os segredos do suspiro, mas sinto a cada suspiro, um mergulho desconhecido nos mares íntimos do corpo, o prazer rápido e silencioso. Num instante entre respirar e expirar desencadeia um balé frenético do universo, e nesse gesto deprimente encontramos o que de mais voraz afirma nossa existência. No suspiro contem uma vivacidade indômita, selvagem... Genealogia de procedência cósmica e infinda. No entanto, aqui o mormaço permanece.

(Alan Félix)

ADEUS AMOR


Hoje o silêncio
é companheiro da cama,
e ao cobrir com o lençol
a saudade lhe desperta.

Onde está o nosso amor?
Carregaste contigo ao dizer adeus,
quando levaste as manhãs de amor
e as canções que tanto dediquei.

Despiu-se das frases românticas
e evaporou como a lágrima indelicada
que cursa o destino plantado
na origem da sua causa.

Não desejo suas palavras cristalizadas,
emolduradas nas imagens de espelhos.
Se partir, traga honestidade na voz,
no olhar e no tempo.

Não me abrace e partas depois,
o corpo anseia por aprendizagem
da solidão, do vago, do nunca mais...
Permita-me ao costume de não lhe ter.

(Alan Félix)

sábado, 24 de setembro de 2011

Entre














Entre o intervalo
Existe o silêncio e o vazio.

Entre minha boca
E sua boca existe o vácuo.

Entre o muro
E o seu corpo existe minha mão.

Entre o pensamento
e o falar existe um esconderijo

...onde guardo tudo que sinto expressar.

Entre a vida e a morte
Existe o instante de tudo.

...o passa nesse momento é chances perdidas.

A chance de silenciar, beijar,
apertar você e arriscar.


Alan Félix