sábado, 12 de dezembro de 2009

Não existe pecado na escrita

A luz da escrivaninha iluminava a moldura da face na escuridão, o relâmpago dos olhos ocultava a voracidade dos dedos famintos nas teclas do computador. O aroma de café inibia o ar num cárcere privado, na mão esquerda o incenso de cigarro queimava aglutinando as idéias decompostas que germinava no monitor do computador. 
O escritor Benjamim, que nasceu com a maldição nefasta da criatividade literária obscena, representava no corpo os remendos de várias genealogias deturpadas e profanas dos templos inóspitos do subconsciente.  
Construiu o corpo de carne, fogo, aço e coração naquela cadeira para escrever um novo romance sobre a devassidão da sociedade em que vive, ensaiava alguns parágrafos nas nuvens de chumbo da sua mente. Escrevendo o seguinte trecho: 
[...] o salto agulha, o vestido negro como a cortina da noite, sentou oferecendo aos olhos famintos a perna crua. A visão dos homens que ali estavam criaram pênis, tais pênis-óticos profanaram as pernas nua da mulher. Tais mortais entretanto não sabia que se tratava da luxúria pedindo esmola. [...] 
Convidando, Lya, a mulher com quem está casado há cinco anos para ler o trecho que escreveu do romance.  
A esposa e poetisa com quem selou a sebo de vela o beijo sacro. Encontrava-se na forma de mosaico na cama, lendo “Mulheres” de Bukowski, imaginando que tivera a sorte de casar com um literato. 
O devaneio da mulher, ocasionou-se devido ao cigarro de maconha que queimava no seu dedo incendiário, a fumaça dançava valsa no teto dispersando com o ventilador que soprava um vento mecânico lavado na graxa. Calmamente, fechou a mente, carregou nas mãos magras o livro que estava a ler. Andou como riacho nas várzeas da casa, transportando um perfume de vodka. 
Benjamim sentiu uma navalha rasgando seu ombro, a mulher planava suas mãos atingindo o alvo desejado que era o peito do esposo. Navegou a cabeça, atracando no porto esquerdo do homem, os olhos absorveram as palavras digitadas no monitor, e cada palavra penetrava sua vagina áspera e seca, a cada digestão do que lia as veredas da sua vulva inundava-se como o sertão promulgado pelo beato, e flores brotavam com a seiva de mel que escorria por entre a fenda das pernas. 
A poetisa sussurrou no ouvido do marido que tal escrito havia deixado em brasa, o vulcão despertado das suas pernas. O literato tentou manter a concentração na produção do romance, porém, a esposa agachou-se passando para debaixo da escrivaninha, abriu as pernas do marido, sacou teu longo pênis e colocou na boca, buscando escrever com aquele instrumento palavras líquidas. 
Benjamim, segurava-se nas teias elásticas da concentração, estruturando firmeza mental para resistir à tamanha diversão da mulher. Anestesiada pela haste sólida do marido, a mulher buscava desmanchar com a língua ácida o ápice metálico do literato, escorregava a língua e posteriormente arranhava com os dentes a vértice do pênis até o saco escrotal do homem, sugava seus testículos como redemoinho num mar revolto. 
Lya entorpecida pela liturgia profana da sua boca, empurrou a cadeira do marido tentando sentar sobre o teu estandarte sexual. Tempestivamente, o homem empunhou o livro de Bukowski e agrediu a face voluptuosa da mulher. Os dois olharam-se guerreiramente, a língua da mulher varreu o sangue que escorria dos lábios. Benjamim deliciava-se com a cena promiscua da esposa. 
Numa fúria animalesca, segurou-a pelo cabelo projetando o corpo desta sobre a escrivaninha, com garras de rapina destroçou a vestimenta de seda, teus dedos rompiam com as fronteiras da coluna vertebral, alojando as mãos carniçais nas ancas da mulher, dando tapas vigorosos e pressionando as nádegas cetinosas.  
O uivo de prazer da mulher espelhava no monitor do computador, suas mãos tentavam segurar firmes as pontas da escrivaninha, teus seios dedilhavam as teclas do teclado, a cada enfiada que o literato deferia contra a vagina encharcada, o seu pênis entreabria a porta secreta daquela mulher. 
Em estado eufórico, o homem maquinado, exercia o mesmo movimento contra a mulher que possuía metade do corpo sobre a escrivaninha. Num momento, a perna direita elevou até a altura do apoio, cravando na madeira, um olhar fatal projetado para o homem, conduzia o seguinte recado – Devore-me com amor, teu desgraçado. 
O corpo vulcânico do homem, inclinou-se a ponto de teu olho vê pela luneta vaginal da mulher, a epifania grudou na sua retina mostrando o mundo desconhecido do jardim lascivo que borbulhava naquele ventre. Despertando da viagem, a sua língua evaporou na clareira ardente da mulher, o único resquício material era o clitóris que efervesceu nos lábios engrenado do homem. 
A voz despetalada de Lya, declamava versos dos poemas de Maria Teresa Horta, entre o mínimo intervalo existente do gemido, recitava os seguintes versos: 
São as tuas nádegas/na curva dos meus dedos/as tuas pernas/atentas e curvadas/O cravo - o crivo/sabor da madrugada/no manso odor do mar das tuas/espáduas/E se soergo com as mãos/as tuas coxas/e acerto o corpo no calor/das vagas [...] 
A mulher deitou-se sobre a escrivaninha, derrubando todos os objetos existentes, abriu as pernas que patinava nas fibras frágeis do ar, pousando-as no ombro do homem, e com um pequeno sinal verde do dedo indicador, balançou-o num gesto simbólico de “chamado”. Desta maneira, aquela torre de babel ereta, ruiu dentro da babilônia quente-úmido da poetisa.  
O lábio torrencial do homem, regou as sementes petrificadas dos seios da mulher, isso enquanto, a babilônia desmoronava dentro da vagina solstícia. A inclinação do corpo feminino agarrando-se na nuca do homem, o segurar pingente do buquê de flores, assim o literato carregou aquele ramalhete que gozava suspensa pelo braço confortante. 
Algumas horas depois, o incenso do cigarro no dedo, a caneca de café aromatizando a casa e dois corpos estrelar brilhando na escuridão da sala, feito pequenas estrelas que faleceram a bilhões de anos, mas continua emanando sua luz. 

Alan Félix