sábado, 30 de maio de 2009

Cartas sem destino...



Querida Elnora,


O céu amanheceu cinza, não há um brilho dourado entre as nuvens. O dia acordou pesado por causa da chuva. Sei que não sou o dia, mas raio toda manhã. Também não sou as nuvens, mas flutuo, modifico e disperso todo dia. É que hoje amanheci pesado, carregado, trovejando como o dia e as nuvens. Talvez, seja a linha tênue que nos liga que esteja rompendo. Rompendo como um relâmpago que guerreia no ar, e cai falecido na terra. Renascendo, quem sabe como um anjo caído. Sim, somos anjos caídos, buscando um levante a cada dia para voarmos. Há quanto tempo não sei a sensação do cheiro úmido do vento na face, o bater das asas nas costas. Outrora, meus ensaios de vôo eram os versos de poetas que você enviava. Sentia uma força inumana lançando para o alto como se alçasse vôo para um devaneio. E a paisagem dentro mim, um espetáculo magnífico, onde o telespectador abstrato era você. Os versos foram ausentando, suas palavras foram emudecendo, a distância construindo trilhas, quando notamos éramos labirintos. Fiquei perdido entre nós, não achei a saída. Acostumei ao solo seco e árido, desmaterializei minhas asas, nasceu calo nos pés. Familiarizei com a sala da nossa casa, e aos livros empoeirados na estante. Aceitei a rotina de olhar aquele céu toda manhã. Logo hoje o céu amanheceu cinza, e nossa linha tênue está rompendo. Estou me rasgando como uma folha velha na qual você escreveu os seus versos. Perdão, meu bem, é que estou matando o último vôo que poderia dar.

(Alan Félix)