quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

Beije-me

"Beije-me sob o crepúsculo.
Leve-me pra fora, no chão iluminado pela lua.
Levante sua mão aberta, faça a banda tocar
e faça os vaga-lumes dançarem.
A lua prateada está brilhando, então me beije."

(Sixpence None The Richer Kiss-me)


O outono sempre é triste, mas a noite é linda, no manto negro do céu os vaga-lumes brilham procurando uma parceira para dividir o horizonte. Emitem nos sinais luminosos a palavra “amo-te”, são códigos secretos decifrado apenas pelas fêmeas que tecem suas asas no vôo.

Numa noite de sábado caminhei até o ancoradouro localizado na margem esquerda do rio, desatraquei o pequeno barco a remo do meu avô, remei até o centro do rio, fiquei sentado observando a lua e escrevendo meus pensamentos no caderno.

O ar frio que viaja nas asas do vento, entorpeceu meu corpo. Dormir no balançar do rio, os peixes ficaram observando e murmurando entre si. O tempo naufragou na essência dos meus sonhos, até o instante que ouvi uma voz masculina clamando por socorro. Acordei repentinamente, os peixes assustaram-se e fugiram, por um breve momento meus ouvidos tornaram sonares, rastrearam a voz masculina que clamava ajuda.

Remei até a margem direita do rio.

Avistei o rapaz que estava se afogando na margem do rio, saltei do barco mergulhando no rio, nadei ao encontro do moço. Seu pé encontrava enlaçado por plantas aquáticas, afundei e arranquei as plantas que o arrastava para morte.

O moço estava quase perdendo os sentidos, o resgatei, repousei seu corpo fadigado sobre a grama que cobria as margens, passando alguns minutos de descanso o mesmo recobrou as forças e agradeceu o salvamento.

Acompanhei-o ao chalé onde morava, recolheu-se ao quarto para trocar de roupa, fiquei sentando em frente a lareira aquecendo-me. Retornando do quarto, trouxe consigo algumas roupas secas para mim. No banheiro da casa troquei de roupa. Fiquei esperando a roupa secar.
Conversamos, enquanto a roupa secava. Vários assuntos flutuaram das nossas bocas, a noite foi ficando mais pesada, porém estávamos embebedando-se com as palavras um do outro.

Aquele moço possuía uma voz penetrante, olhos negros como o ébano, dentes alinhado e branco como marfim. Nunca havia reparado alguém do mesmo sexo daquela maneira. Uma estranha sensação fluía dos dedos, e vogava pelo meu corpo acelerando o coração.

Enfim, a roupa secou e retornei para casa, o amanhecer já invadia o vão da sala.

Os pássaros cantavam para o sol.

Caminhei tentando localizar o barco, e retornei para casa e dormir.

Dormir a manhã toda, acordando com o crepúsculo, meus avôs preparavam o jantar. Após a noite queimar no céu e os vaga-lumes arderem nas linhas do ar. Voei ao encontro do rapaz, o encontrei na margem direita do rio, entrou no barco, ficamos naquele espaço conversando.

Transformou-se numa cerimônia nosso encontro, ficávamos cada vez mais íntimos, sabia tudo que passava em sua vida, e ele na minha. A amizade forjou-se nas chamas da água. A lua voyeur, observava numa imensa luneta branca projetada nas águas do rio. E os peixes que se aglomeravam para testemunhar.

Certa noite, o rapaz trouxe flores e uma folha rabiscada. Segurou minha mão, olhou nos meus olhos. O nervosismo escoou dos poros. As linhas de minha mão tornaram-se rio, e cursou todo suor, diplomando na mão quente do rapaz. Ao entregar as flores sua voz sussurrava num timbre amoroso todo amor que expelia das batidas de seu coração.

As últimas palavras que ficaram impregnadas: “beije-me”.

Fiquei sem reação, algum peixe que estava ali devorou minha voz, o silêncio ecoava da minha garganta. A lágrima caiu da minha face, ou talvez o rio tenha ido adentrar meus olhos. O que aconteceu foi que o deixei na margem do rio e voltei para casa.
Amanheceu, o dia evaporou, a noite condensou e outro dia passou. Amanheceu novamente, o dia descansou, a noite foliou e um novo dia acordou.

Acordei com os comentários da minha avó dizendo que um rapaz morreu ontem à noite quando tentava atravessar o rio num barco envelhecido. Nesse momento, saltei da cama e corri até o ancoradouro, peguei meu barco e remei até a casa do rapaz.

A casa repleta de familiares, um velório acontecia, meus olhos aguaram, meu pulmão transbordou num grito mudo.

Caminhei até o caixão, o corpo descansava, toquei na pele que antes queimava o sol e agora está frio como o ar que me entorpeceu na noite que o conheci. Transpareceu em minha mente as palavras “beije-me”. O timbre imaginado da sua voz puxava meus lábios.

Forjou-se nos meus lábios despedaçados a palavra “beije-me”. Beijei-o, e vaga-lumes brilharam no meu estômago. Assim, entendi porque o vaga-lume iluminava-se com o amor.

(Alan Félix)


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