domingo, 20 de maio de 2012

AGUÇO


Lembro-me quando a noite pairava num véu sobre o teto da casa. A solidão vagava nos ruídos noturnos, e a sala com a televisão sintonizada em algum canal de silêncio angustiante. O medo era roído nas pontas dos dedos. Você chegou calada, quase translúcida, mas voraz e tenaz com suas passadas. 
Despojou sobre o meu colo, rasgando o suspiro com o gume do dedo que se arrastou sobre meu peito. O coração percutia melodias minimalistas; o arrepio se erguia nas vértebras aos cheiros lentos na encosta do pescoço. Hipnotizado, respirava seu corpo, suas vestimentas fluidas que escondiam a nudez do corpo. As minhas mãos tateavam, lia os sonetos cunhados nas planícies da tua pele negra. 
Desfalecido, como deus caído, sustento o seu mundo nos meus braços, ergo a noite no firmamento e aguento as punições titânicas do seu corpo, que navega no cálice das minhas mãos. Assim, enveredo nas cordilheiras dos seus beijos, trilhando nos labirintos dos seios e perco-me num devaneio. 

Alan Felix